Relato da Vivian – Nascimento Joaquim – Parto Normal 23/12/16

18 de fevereiro de 2017

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O nosso Joaquim foi parcialmente planejado. Digo parcialmente porque eu e o meu marido nunca teríamos coragem dizer um para o outro “ok, vamos ter um filho”. É uma decisão muito grande e de enorme responsabilidade. Não é fácil você abrir mão da sua vida a dois para inserir um serzinho completamente dependente.

Por isso, deixamos rolar. A gente já não se cuidava tanto, mas sem neuras, sem olhar calendário, nada. Como tomei anticoncepcional por muito tempo, sabia que podia demorar. Mas o plano de Deus era maior e mais rápido! Em menos de um mês acabou nos presenteando.

Descobrimos a gravidez com 5 semanas e na época, estávamos na Disney, com meus pais e sogra e só pude dizer adeus às montanhas russas radicais! Optamos por esconder de todo mundo a gravidez para não ter expectativa nenhuma, mas só conseguimos por mais 3 semanas. Todo mundo já desconfiava mas negávamos até o final.

Contamos a novidade no dia do meu aniversário de 30 anos e daí pra frente, foi só festa. Achávamos que teríamos uma menina, mas novamente Deus quis diferente e a surpresa de que viria um menino foi maravilhosa. O nome só conseguimos escolher com quase 5 meses. Depois de muito debate, meu marido me deu de presente um vinho com o nome dele, Joaquim. Significa ‘estabelecido por Deus’. Mais real, impossível.

A ideia inicial de parto era cesárea. Por medo. Por achar que se o bebê estava pronto, não tinha o porquê de esperar e correr algum tipo de risco. Pensava assim sem ter qualquer conhecimento. Mas meu pensamento mudou em um dia, depois de ver o filme ‘O Renascimento do Parto’. Eu queria tocar meu bebê assim que ele nascesse. Queria dar a ele todo o carinho que ele precisava nos seus primeiros segundos de vida.

E assim veio a indicação da Cris através de uma amiga. Nos conhecemos e tínhamos a certeza que era a melhor escolha. A Cris tem o dom de no primeiro encontro fazer parecer que te conhece há anos.

A gravidez foi passando, chegando na reta final e nem sinal do Joaquim querer chegar. E sempre achei que ele chegaria antes.. Completamos 40 semanas e nada. A Dra. Bruna, que me acompanhou no pré-natal e também foi indicação da Cris, falou pra eu já pensar na indução e deixou a recomendação para internação no ilha após completar as 41 semanas.

Durante os 9 meses da gestação me preparei para muita coisa, mas com certeza não tinha pensado em indução. As opiniões eram muitas e de todos os lados. “Espera ele chegar na hora que ele quiser”. “Pra que esperar mais? Um conhecido esperou até o final e a criança nasceu com um probleminha na perna de tão apertada que ficou”. Cada um dizia uma coisa. Eu e o meu marido fugimos pra um hotel fazenda um final de semana para relaxarmos e decidir o que fazer, sem interferências, sem pressão.

E eu estava exausta, chegando no ponto de não “aguentar mais”. Não queria isso. Estava com 24kg a mais e para fazer tudo era pesado. Há tempos já não dormia direito. Queria receber meu filho bem e se continuasse, não ia acontecer isso. Fugir de todos foi a melhor coisa. Então decidimos esperar as 41 semanas e nos internar. Esperei por ele o tempo que pude esperar. Agora tinha que pensar em mim.

Fomos com 41 semanas para o Ilha, com malas prontas. Voltamos para casa. Não tinha quarto disponível. Aparentemente, todo mundo resolveu ter o filho antes do Natal, por cesárea eletiva. Voltei no dia seguinte de manhã e nos consultamos com a Dra. Karol. Ela entendeu o que eu estava sentindo e concordou com a internação e indução. Disse que os riscos de se esperar não superavam os benefícios. Porém, aconselhou a retornarmos no final do dia, para começar a indução a noite e eu poder ter a última noite tranquila. E assim voltamos para casa novamente, mas dessa vez com a certeza de que teríamos o nosso presente nos braços até o Natal.

Nos internamos no final do dia 22 de dezembro. A indução começou às 21h e eu não sentia nada além de levíssimas cólicas. Às 6h a bolsa estourou quando levantei da cama e as cólicas foram aumentando. Às 8h eu já estava com contrações. Avisei a Cris, que pediu pra eu ir monitorando. Por volta das 10h mandei mensagem pra ela dizendo que já estavam muito fortes, apesar de espaçadas. Na mesma hora ela disse que estava indo.

Quando ela entrou pela porta foi um alívio! Ao mesmo tempo, pedi desculpas para ela porque o médico tinha acabado de fazer o toque e eu só estava com 2cm de dilatação. Eu só pensava “já sofri um tanto pra ter só 2cm, que Deus me ajude a chegar nos 10cm”. Não foi fácil. Nada fácil. Foi a coisa mais difícil que já fiz na vida.

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As contrações ficavam cada vez mais fortes e perto das 14h fomos para a banheira pra ver se aliviava. No começo foi gostoso, mas não achava nenhuma posição confortável e cada minuto que passava eu sentia mais dor. Chegou a hora da analgesia. Relutei um pouco porque queria aguentar, mas já estava insuportável e estava apenas com 4cm de dilatação. Então eu fui para o centro cirúrgico e depois de uns 40 minutos, pude sorrir novamente. Fiquei 3 horas sem dor e todos puderam descansar um pouco apesar de meu cérebro não ter desligado.

Fizemos novo toque perto das 18h e estava com 8cm. Finalmente! Mas a Cris verificou as contrações e elas tinham ficado espaçadas. Lá veio a ocitocina e não demorou muito pra elas virem e virem mais fortes. A dor voltou e agora era diferente. Sentia muito mais atrás, como se o bebê já estivesse descendo. Era muito diferente e doloroso. Ali eu já não sabia que iria aguentar e pensava na cesárea. Novamente veio a analgesia. O efeito já não foi o mesmo como da primeira vez. Apenas me proporcionou alguns minutos de pouco conforto.

Já tinha passado das 20h e não sabíamos quem assumiria o plantão. Batidas na porta e vejo a Dra. Bruna e seu sorriso entrando. Minha médica do pré-natal, que me acompanhou nos últimos meses, era o anjo de plantão. Ali eu vi que tudo aconteceu por um motivo. Que alívio que deu!

Novo exame de toque e eu continuava com 8cm. Fiquei indignada! Tanta dor pra nada! Eu queria analgesia de novo, cesárea, qualquer coisa pra acelerar o processo e acabar com tudo aquilo. Mas não podia mais analgesia. Estávamos em um ponto que precisava sentir a contração para poder fazer força e ajudar no expulsivo. O jeito era aguentar. E ter que aguentar era insuportável. Me questionava o porquê de eu ter escolhido passar por aquilo. Escolhi sofrer por livre e espontânea vontade. Não fazia sentido.

Me sugeriram que eu andasse pelo corredor e agachasse toda vez que viesse a contração. Mas sair da onde eu tava era impossível. Gritar no corredor para todos verem eu daquele jeito era impossível. Como o Joaquim tinha parado de rotacionar por conta da analgesia, a posição que favorecia era ficar de quatro na maca, me apoiando na cabeceira. Nunca tinha pensado em ter meu filho daquele jeito, de um jeito tão primitivo. Mas realmente foi a única posição que eu conseguia fazer força e descansar apoiada na cabeceira da cama.

Não me lembro direito mas acho que a Dra. Bruna fez um novo toque e ajudou a chegar nos 10cm. Não acreditava que tinha chegado na reta final. Depois disso, nunca gritei tanto na vida. Eu gritava, urrava. Chorava. Implorava pro Joaquim sair. Dizia que não aguentava mais. Chorava. Implorava para a Dra. Bruna puxar ele. Chorava. Implorava pela cesárea. Chorava. No fundo, eu sabia que estava em um caminho sem volta. Ele tava vindo e não fazia sentido abandonar tudo. A Cris estava do meu lado esquerdo. Meu marido do lado direito. Os dois se revezavam em me abanar, segurar meu cabelo, limpar meu suor e me dizer que eu era capaz, que tava quase, que eu ia conseguir. A Cris me dizia através do olhar. O pouco que eu conseguia olhar pra ela eu via que ela estava ali, me apoiando.

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A dor era insuportável. As contrações vinham e lembro de fazer força três vezes em toda contração. Sentia rasgar tudo. Era muito doloroso sentir ele descer. E quando a força acabava, parecia que ele voltava tudo de novo pra dentro e teria que recomeçar do zero. Odiava isso. Parecia que todo o trabalho ia em vão. Eu sentia queimar mas não vi nada de partolândia. Partolândia lembrava “Disneylandia” e Disney era divertido. Aquilo não era.

Só queria que tudo aquilo acabasse. Quando a Dra. Bruna disse que já dava pra ver a cabeça, eu não acreditava que só agora ela via a cabeça mas ao mesmo tempo me deu força para continuar. Achava que não era possível, mas a dor só aumentava. Meu deus. O que que eu fiz? Meu marido segurava a minha mão e dizia que tava quase, pra eu aguentar. Achei que ia virar a noite em trabalho de parto. Que eu ia desmaiar de dor.

Mas às 22h16 nasceu o nosso Joaquim, com 54cm e quase 4,2kg. Um bebezão. Justificou tamanha dor. Ele nasceu, eu de quatro e escutei de alguém “vira pra pegar ele”. Eu estava paralisada. Não conseguia me mexer. Acho que entrei em choque. Não acreditava que tinha conseguido, que tinha acabado, que ele finalmente tinha nascido. Passaram ele por debaixo das minhas pernas e pude vê-lo. Eu não conseguia dizer nada, mas não achava possível aquele bebê, tão perfeito, ter saído de dentro de mim. Era inacreditável.

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Depois eu virei, consegui deitar com ele nos meus braços e nós ainda ligados pelo cordão. O papai cortou quando parou de pulsar e viramos duas pessoas não mais conectadas de forma fisica, somente emocional. E eu tinha esquecido completamnte da placenta. Tínhamos que esperar ela sair. Meia hora e nada. Uma hora e nada. Joaquim já estava nos procedimentos com o pediatra e nada da placenta sair. Ocitocina no cordão para ajudar. Dra. Bruna puxava e nada. Quando ela disse pra eu fazer força não acreditei. Como assim mais força? Que força? Eu estava acabada. Quando comecei a ter contrações de novo deu vontade de chorar. Isso de novo? Mas tinha que fazer força. A placenta tinha que sair. Alguns empurrões com uma força que não sei da onde veio, ela saiu. Era enorme. Justificou a demora.

Papai já estava com Joaquim nos braços, me esperando. Mas não tinha acabado ainda. Para não me levar para o centro cirúrgico, a Dra. Bruna suturou ali mesmo. Lembro de ter perguntado quantos pontos ela estava dando porque eu só via a linha passando de um lado para o outro. Ela disse “não estou contando, mas não se preocupe, externo só vai ficar um”. OK.

Me perguntaram se eu utilizaria a placenta para alguma coisa. Não, não sou dessas (mas nada contra quem consome). Só queria o quadro da Cris. Ela fez o quadro, que ficou lindo por sinal. Maravilhoso ter a tela pintada e lembrar como ela surgiu. Depois a Cris fez questão de vestir o Joaquim com a sua primeira roupinha. Mais uma vez, lindo.

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Finalmente, fomos para o quarto. A Cris foi junto com a gente, nos reinstalou, viu que estava tudo bem e se despediu. Ali acabava um ciclo que horas antes eu achei que não teria fim.

Passamos o Natal no hospital, ainda com a adrenalina a flor da pele. Foram 3 noites mal dormidas que se juntaram com noites nada dormidas em casa. Por mais que a gente leia sobre, é impossível estar preparada para o puerpério. É muito difícil. Saímos de casa sendo dois e voltamos sendo três. Não tivemos um tempo de adaptação. Foi de repente. Mas como tudo na vida, tudo se ajeita e tudo passa. Acho que esse último é o principal mantra da maternidade. Tudo passa, acredite!

Agradeço imensamente o meu marido, meu companheiro e amigo, Matheus. É claro que ele sempre esteve do meu lado, mas no dia do parto eu vi um homem diferente. Aquele que me apoiou, estendeu a mão e não me deixou por um minuto. Ele tentava, de forma singela e amorosa, fazer algo impossível: aliviar a minha dor. Ali estava o verdadeiro significado de parceria.

Agradeço também a Renata Larroyd, que foi a nossa fotógrafa. Não teríamos fotógrafa até a semana do parto. Ela estava procurando casais grávidos para ampliar o seu leque de trabalho e conhecemos ela através da Cris. Ela foi até a minha casa na segunda e na sexta-feira estava do nosso lado acompanhando o nascimento do Joaquim. Eu que não pretendia registrar o trabalho de parto, fico muito feliz pela Renata ter aparecido em nossas vidas e ter dado de presente para a família toda fotos lindas pra deixar o dia ainda mais inesquecível. Ela foi de uma sensibilidade incrível e demonstrou isso através do seu trabalho.

Agradeço também a Dra. Bruna, que me acompanhou na maior parte do pré natal e que tive a sorte de poder contar com ela na reta final do parto. Acho que na sala ela era a pessoa mais calma do universo e deixou claro pra mim que não deixaria eu sofrer em vão e de forma desnecessária. Sem o incentivo e amparo dela eu também não teria conseguido.

E claro.. O que dizer da Cris? Ela foi o anjo que sempre aparentou ser. Com toda a sua serenidade e experiência, nos conduziu da melhor forma possível. Com playlist, massagens e muito carinho, conseguimos enfrentar tudo o que o dia nos reservou. Já disse pra ela e digo novamente: acho desumano uma mulher passar por um trabalho de parto sem ter uma doula do seu lado. E sem ela, eu teria ido pra cesárea logo no início!

Hoje meu bebê tem quase 2 meses e comecei esse relato há mais de duas semanas. Aos poucos vamos arranjamos um tempinho. Ainda é cedo, é claro, e cada fase é uma fase. Mas as coisas estão se ajeitando, o amor aumentando e as descobertas chegando. O mais importante nessa nova etapa não é estar preparada para tudo e sim, aceitar que nada será perfeito e surgirão muitas dificuldades. Muitas mesmo. Mas com muita paciência e calma, saberemos superá-las. E não exite em pedir ajuda. Para quem quer se seja. É fundamental!

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Vivian Rodrigues Amaral

Fotos: http://rlarroyd.com/nascimento-joaquim/ 

Relato da Patrícia – Nascimento Catarina ( Parto Natural) 27/11/16

6 de fevereiro de 2017

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A espera e a chegada da Catarina – 27 de novembro de 2016

A cada dia eu tenho mais certeza de que não estamos na vida das pessoas por acaso e que estamos ligados aos seres amados por um fio, um fio invisível que não enxergamos com os olhos físicos, só com o coração. É assim que eu penso que foi constituída a minha família, por uma força muito maior do que o destino, por um amor que ultrapassa o meu entendimento tão limitado. E com a Catarina também foi assim. Acredito que o meu coração começou a deseja-la no dia 5 de abril de 2012, o dia em que a Sara, sua irmãzinha mais velha, nasceu.

Eu não sabia quem seria o outro bebê que Deus mandaria para nossa família, se seria menino ou menina, como se chamaria; mas no dia em que olhei pra Sara pela primeira vez eu tive certeza que queria mais. A maternidade definitivamente não é um mar de rosas. Junto da Sara vieram muitos conflitos internos, renúncias e dores, emocionais e físicas. Mas apesar das dificuldades, pela primeira vez eu me sentia completamente feliz.

Quando a Sara completou três anos eu engravidei, mas dias depois tive um aborto. Fiquei triste e frustrada, mas não fiquei arrasada; eu sabia que o nosso bebê viria. Passaram oito meses e eu tive a certeza que estava grávida de novo, mesmo com dois testes de farmácia e um de sangue negativos. A minha sensibilidade acusava que o meu bebê já vivia em mim. Três dias depois eu repeti o exame e “tchanã”: Positivo! Eu e o papai, Willian, demoramos uma semana para contar para a Sara, que então guardou o segredo conosco por mais uns dias, até que contamos aos nossos pais e depois aos familiares e amigos mais próximos. Que alegria ver as pessoas felizes com a nossa felicidade!

Como nossa primeira experiência tinha sido excelente, não tivemos dúvida sobre o parto natural. Também decidimos que seríamos acompanhados pelos mesmos profissionais do parto da Sara, o nosso querido obstetra Fernando Pupin e a Cris, nossa super doula… Eles faziam parte do pacote gestação hehe. A Barriga cresceu rápido e com 16 semanas descobrimos que teríamos outra menina. Foi emocionante como a Sara reagiu à notícia: “obrigada mamãe, obrigada papai, obrigada Deus”, gritava ela pela casa.

Ali ela já começava a amar a irmãzinha. Foi a Sara quem escolheu o nome, ajudou a definir o enxoval e as cores do quarto que as duas dividiriam. Durante a gestação intensificamos nossa atenção a ela, tentando preparar seu coraçãozinho para a chegada da irmã. E num ano cheio de acontecimentos, uma gestação com alguns resfriados, viroses e até uma herpes-zoster, todos os dias eu ia dormir muito feliz e de barriga cheia, cheia de amor!

Agora eu volto a escrever sobre aqueles fios invisíveis que nos ligam aos seres amados. Quase no fim da gestação eu e o Willian ganhamos um lindo presente de um casal muito especial para nós, uma afilhada, a nossa Joana. Que honra! Algumas semanas depois ela quis nascer e eu corri para a maternidade para cuidar da irmãzinha mais velha, a Rebecca, enquanto o papai Rafael acompanhava a mamãe Priscilla no trabalho de parto. Era 20 de outubro, praticamente um mês antes da minha DPP. Naquele dia tão especial eu tive o prazer de ver a minha afilhada chegar ao mundo em um lindo parto na água. Meu coração se encheu de amor por ela e de orgulho por aquela família linda e eu senti uma inundação de ocitocina em mim.

Quatro dias depois o meu tampão mucoso começou a sair. Opa! Eu estava só com 35 semanas e fiquei preocupada, mas sabia que poderia ser um processo lento. Avisei à Cris e fiquei monitorando. No mesmo dia a perda do tampão cessou, mas a ansiedade veio com tudo e cada dia passou a ser eterno. Na consulta de 38 semanas o exame clínico mostrou que eu já estava com cinco centímetros de dilatação e eu saí da consulta achando que iria parir naquele dia. Ao mesmo tempo em que eu queria entrar em trabalho de parto, eu também estava curtindo a barriga enorme e as mexidas frenéticas da Catarina. Eu sabia, por experiência própria, que sentiria falta dela dentro de mim.

E no dia 27 de novembro, às 3h50 da manhã, com 40 semanas e 5 dias de gestação, senti uma fisgada forte e nosso colchão ficou encharcado: “Amor, minha bolsa rompeu”. O William pulou da cama e eu mandei uma mensagem pra Cris que me respondeu em seguida. Enquanto eu ia para o chuveiro o papai ligava para a fotógrafa, a querida Lu Guilherme que ia nos acompanhar. Antes que a gente pudesse ligar para o Pupin as contrações começaram com tudo e eu tive que interromper o banho para ir à maternidade. A Sara tinha pedido para dormir na casa da vovó naquela noite, o que facilitou a nossa logística, e uns 30 minutos depois já estávamos indo para o Ilha.

Pegamos a Cris em casa e pedi para ela ligar para o Pupin. Antes das 5h da manhã eu já estava na sala de parto fazendo o exame de toque e para minha grata surpresa o meu colo do útero já estava com nove centímetros de dilatação. Tenho que admitir que achei que seria um parto à jato, pois eu já sentia muita vontade de fazer força.

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A banheira estava uma delícia, tão boa que fez as minhas contrações diminuírem, então a Cris sugeriu que eu ficasse um pouco no chuveiro. Parece que durou uns dez minutos, mas o papai disse que fiquei mais de uma hora lá, sentindo a água cair sobre o meu corpo. Era só eu e a Catarina. Eu estava imersa na “partolandia”, superconcentrada, ouvindo e cantando baixinho as músicas da playlist que havíamos levado para a maternidade. No chuveiro eu não sentia dor, só vontade de fazer força, mas eu sabia que naquele momento a dor era minha aliada, ela tinha que existir. Então fui para o banco de cócoras, na tentativa de que a gravidade nos ajudasse.

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Eu sentia dores moderadas e uma agonia indescritível, mas as contrações duravam poucos segundos, o suficiente apenas para eu esmagar as mãos do papai que estava sentado atrás de mim. O dr. Fernando percebeu que eu precisava de ajuda, a Cris também. Apesar de estar com dilatação total há mais de três horas, a Catarina ainda estava alta e eu começava a ficar cansada. Às 8h30 o Pupin me perguntou se eu aceitava usar um pouquinho ocitocina sintética, nas palavras dele: “só um cheirinho” para ajudar a Catarina a descer.

Naquela hora eu devo ter feito a cara do gatinho do shrek, pois eu queria que fosse tudo espontâneo. Mas a minha confiança nele foi muito maior do que as minhas idealizações e eu respondi que sim, pois eu sabia que ele estava tentando conduzir da melhor forma. Aquele “cheirinho” foi suficiente para transformar as pequenas contrações de dez segundos em dores fortes com cerca um minuto. Senti ela descendo e sua cabeça querendo sair de dentro de mim. Fomos para a cama e eu fiz toda a força do mundo, mais força do que eu sabia que tinha. Eu pensava na Catarina, eu pensava na Sara, eu pensava na perfeição do corpo humano. Lembro de gritar alto, mas o vídeo do parto mostra apenas umas reclamações e uns gritos abafados.

Mas dentro de mim o som era ensurdecedor, eu estava quebrando tantas barreiras, me superando de novo, abrindo portais e curando tantas dores, inclusive a dor de um aborto… Uma transformação acontecia ali e eu sabia que as nossas vidas nunca mais seriam as mesmas – a Sara ganharia uma irmã para sempre. Às 8h56 o dr. Fernando entregou a Catarina em meus braços. Eu só conseguia agradecer a Deus e olhar para aquele rostinho lindo. O Willian me beijou, beijou a Catarina e ficamos nos olhando, nos cheirando.

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Ela estava roxinha e chorando intensamente. Parece que estava tudo em câmera lenta até que o dr. Fernando começou a fazer os procedimentos para cortar o cordão que ainda pulsava. Foi então que eu observei a pediatra do lado da cama olhando preocupada para a minha princesa. O Willian cortou aquele cordão que me ligou a ela durante quase nove meses e logo a Catarina foi retirada dos meus braços e colocada no oxigênio, ali mesmo na sala de parto.

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O Pupin e a Cris nos acalmaram e falaram que era comum algumas crianças nascerem com um desconforto respiratório, mas que logo ela ficaria bem. Enquanto eu olhava para a Catarina recebendo os primeiros cuidados o Pupin me examinava. Eu me sentia muito bem fisicamente, sem dor, sem precisar levar pontos, apenas preocupada.

Logo depois a Sara entrou na sala de parto e aquele momento que eu tanto esperei estava se concretizando ali, minhas duas filhas se olhavam e se tocavam pela primeira vez. Que emoção!

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Minha mãe, irmã, os avós paternos e o padrinho também entraram e ficamos todos ali, admirando aquele milagre da natureza, a nossa menina cabeluda, de 51,5cm e 3,780kg. Ela já não estava mais roxa, mas ainda apresentava respiração irregular. Ali mesmo na sala de parto eu tomei café da manhã, fui para o banho, veio o meu almoço e nada de pegar a Catarina no colo; ela continuava usando o capacete de oxigênio.

Já era quase 13h quando a pediatra conversou comigo e disse que precisava levar a Catarina para UTI pra fazer alguns exames. Parece que o chão abriu. Eu pedi para segurá-la pelo menos um pouquinho antes de colocá-la no colo da enfermeira. Mais do que a minha filhinha, eu entregava para aquela pessoa que eu nunca tinha visto antes um pedaço do meu coração. Quando as duas saíram da sala de parto eu chorei demais, eu não estava preparada para viver aquilo.

Durante nove meses me preparei para várias intercorrência; para uma cesariana se fosse preciso, para ter que ir para outra maternidade, para ser atendida por outros profissionais, mas não estava preparada para que a Catarina não ficasse comigo.

No dia seguinte os exames apontaram um princípio de infecção e recebemos a notícia de que ela teria que ficar internada para tomar medicação. Como os horários na UTI eram restritos, eu ficava a maioria do tempo no quarto. Eu sabia que ela estava sendo bem cuidada, mas eu sentia uma saudade tão grande dela, que meu coração estava estraçalhado. Cada minuto que a gente ficava na UTI ao lado dela era valioso.

No dia 29 eu ganhei alta e tivemos que ir para casa deixando lá na maternidade uma parte de nós. Sem dúvida aqueles dias foram um convite à superação. O que nos fortalecia era a melhora constante no quadro dela. Ainda no dia 29 comecei a amamenta-la e a segurá-la no colo com frequência. Depois da minha alta passávamos os dias na maternidade e à noite íamos para casa para estar com a Sara, que revigorava as nossas forças. Em todos os momentos eu me senti amparada por Deus e pelo meu próprio espírito e conheci uma força que eu não sabia que tinha.

E uma semana depois do seu nascimento, no dia 4 de dezembro, finalmente levamos a nossa menina para casa. Esse dia será para sempre inesquecível. Até hoje não temos a resposta sobre o que ocasionou aquele princípio de infecção, já que o pré-natal estava normal, mas sabemos que foi um privilégio estarmos cercados por profissionais competentes que diagnosticaram e trataram precocemente a nossa pequena valente.

Os dias seguintes continuaram sendo de muitas lutas, pois eu tive muitos problemas para amamentar: fissuras, mastite, galactocele e até uma suspeita de tumor na mama. Mas a cada dor que eu sentia, me recordava daqueles dias difíceis na UTI e pensava que nenhuma dor poderia ser mais forte do que aquela. E apesar de amamentar por mais de um mês sentindo muita dor, ela estava conosco e isso me fortalecia e não me deixava desistir.

Hoje, dois meses depois, a amamentação ainda não está 100%, mas continuamos persistindo. Apesar de tudo a nossa vida nunca foi tão feliz e completa. Sinto muita gratidão ao universo por cada detalhe, cada vivência e cada dificuldade, pois ela só fortaleceu os nossos laços.

Gratidão aos profissionais do Ilha, em especial à equipe da UTI que cuidou com tanto amor da nossa menina.

Gratidão eterna ao dr. Fernando que mais uma vez cumpriu com profissionalismo e delicadeza o seu papel, ouvindo minhas vontades desde o pré-natal e me deixando protagonizar o parto.

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Agradeço também à Cris por ter aceitado mais uma vez o nosso convite e por todo o seu apoio, abraços, beijinhos, abanos e por toda a força que deu a mim e ao papai. Cris, você foi fundamental!

Gratidão aos nossos pais, familiares e amigos que acompanharam de perto e por todo apoio, amor e preocupação. Carinho especial à minha mãe que praticamente mudou-se para a nossa casa para ajudar nos cuidados das meninas, mas, a cima de tudo, para cuidar de mim num momento em que todas as atenções estavam voltadas à Catarina.

No relato do parto da Sara eu encerrei escrevendo que eu tive o parto dos sonhos e que é possível parir sem trauma e sem sofrimento, apesar da dor.

Então vou me parafrasear e escrever de novo que não há dinheiro no mundo que pague um parto com respeito como o que eu tive.

Por isso, as gestantes que lerem esse relato, se tiverem a oportunidade, façam o parto com os profissionais da sua confiança e que respeitem suas vontades, pois o nascimento de um filho deve ser recordado apenas com alegria. E mais uma vez, seja bem-vinda, Catarina. Eu te amo!

Patrícia Schneider de Amorim

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