Relato da Anelise – Nascimento Antônio 05/02/2014

5 de abril de 2014

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Eu sempre achei que seria mãe de menino, acho que todos da família pensavam assim. Somos uma família de muitas mulheres, eu com esse meu jeito prático de ver as coisas, só podia ser mãe de menino mesmo!!

Com 14 anos conheci o Saulo, que primeiro se tornou um grande amigo e depois virou o grande amor da minha vida, meu companheiro, meu marido.

Acho que o Antônio nasceu ali na verdade! Sempre esteve em nossos sonhos, conversas, planos, e esses foram muitoooos, imaginem: 7anos de namoro, 1de noivado e 5 de casamento até resolvemos enfim encomendar nosso tão sonhado bebê!!

É claro que como todos os pais “politicamente corretos” estávamos prontos para amar nosso futuro bebê, mas no fundo da alma, ansiávamos pelo nosso menino, nosso Antônio.

Essa espera foi realmente muuuuito ansiada, 9 meses de muitas tentativas até que em maio de 2013 enfim veio o nosso resultado positivo nos “palitinhos”.

Sim, o exame de sangue confirmou, eu estava grávida!!agora era montar a surpresa pra contar pro papai.

Preparei tudo enquanto ele estava no trabalho, era um sábado e ele chegaria a tarde. Enchi as árvores da rua de balões azuis e rosas até a entrada do nosso portão e na sala mais balões e um grande escrito ” estamos grávidos”!!

Bom, meu marido é policial, e caso a parte é desconfiado de tudo. Diz ele que policial que não desconfia de tudo não descobre nada!!

Pois bem, não sei o que passava naquela cabecinha no momento, sei que vi o carro chegando, ele descendo pra abrir o portão e vindo pra casa com uma cara estranha, até ali o policial não tinha desconfiado de nada, pelo menos nem passou perto kkkk.

Ele só entendeu a rua decorada com balões quando entrou em casa e viu o recado “estamos grávidos”, a emoção rolou, era nosso tão aguardado filho que estava chegando. Foi indescritível ver os olhos emocionados, em lágrimas, do meu marido.

A escolha dos profissionais que nos acompanhariam foi muito tranquila, algumas amigas já tinham parido com o Fernando Pupim e super me indicaram. Eu na verdade fui nos 3 GOs mais conceituados na área da humanização, mas quando eu e marido fomos ao Pupim, foi amor a primeira consulta!! Kkkkk, o mineirinho não deixou dúvidas!!

Agora era a vez da doula, conheci o trabalho da Cris a uns 3 anos através do blog e achei incrível!! Eu e uma amiga já dávamos alguns mergulhos no mundo humanizado mesmo antes de encomendar os babys.

Marcamos uma primeira conversa pra conhecer a Cris pessoalmente e nem precisamos voltar pra casa, já saímos de lá com contrato assinado. Sentimos muita paz e segurança no seu trabalho, e com certeza muito amor na profissão, isso nos deu certeza de que era a pessoa certa pra nos auxiliar no dia em que o Antônio viria ao mundo.

Daí pra frente foi aproveitar a gestação em cada descoberta, o dia que confirmamos que realmente era o nosso menino, nosso Antônio, os primeiros chutes na barriga, os soluços e enfim o barrigão das últimas semanas.

Tive uma gestação muito tranquila, bem ativa. Já tínhamos entrado na 38 semana e nenhum sintoma claro de estar chegando o dia, apenas algumas contrações muito fraquinhas e espaçadas, as famosas contracões de preparo.

Dia 3/02 fui consultar com o Pupim no Ilha, tudo certo com o Antônio, bem encaixadinho. Foi quando o Pupim me deu a notícia que nenhuma grávida quer, era bem possível que ele estaria viajando durante minha DPP.

É claro que na hora foi um banho de água fria, tudo que tínhamos planejado podia não acontecer, mas eu sabia que isso era uma possibilidade, ainda mais com profissionais humanizados.

Ele me acalmou dizendo que os GOs backups estariam disponíveis pra me atender no dia, caso eu quisesse, mas que também o Antônio podia vir antes ou depois de sua viagem!

Saí de lá mais tranquila e dalí em diante todos brincávamos com o Antônio na barriga ” filho você já pode vir, mamãe e papai estão te esperando, mas tem que ser até o dia 10 ou só depois do dia 16″ kkkkk.

E não é que ele escutou!!

Acordei na terça feira super beme vi que o tampão tinha saído, mas não dei muita bola, pois isso podia anteceder até 15 dias do parto.

Lembro que falei com a Cris sobre a consulta com o Pupim e perguntei qual o GO backup ela achava melhor pra fazer o chamado, já tava me preparando pra essa realidade.

O dia foi tranquilo e super corrido, estávamos finalizando obra em casa antes do baby chegar e eu estava nas arrumações dos cômodos. O marido chegou, jantamos e fomos dormir.

Quando deu 24:45 eu acordei com um barulho alto “PLOC” e uma dorzinha, levei alguns segundos para processar mas logo lembrei de alguns relatos de grávidas que escutaram a bolsa rompendo. Levantei e realmente saía um pouco de líquido, fiquei em dúvida se era a bolsa e fui pro banheiro pra ver.

Alí começaram as contrações, primeiro em intervalos de 5m, depois variavam em  5,4,3, foi quando acordei o marido pra me ajudar na contagem pois já não conseguia mais me concentrar.

As contrações continuavam nesse ritmo, pedi pro Saulo ligar pra Cris pra avisar, enquanto isso fui pro chiveiro. Alí, naquele momento, entrei completamente na partolândia, só conseguia pensar que logo o meu pequeno estaria em nossos braços, tinha certeza que ele havia escolhido, queria nascer, queria conhecer o papai e a mamãe!

A Cris pediu pra falar comigo e lembro que perguntou o nível de dor, eu disse 5.

Ela ficou de ligar pro Pupim e nos retornar, ligou dizendo que era para irmos pro Ilha pois eu era positivo em streptocócus e precisava começar a tomar antibiótico na veia.

Continuei no chuveiro enquanto o marido colocava as coisas no carro, detalhe que só a mala do Antônio estava pronta, as nossas coisas fomos arrumando rápido entre uma contração e outra.

Chegamos no Ilha por volta das 2:30, a Cris e o Pupim já estavam lá, fomos pra um quarto pois a sala de parto estava ocupada. Pupim me examinou e 3cm de dilatação.

No quarto fiquei alternando entre bola, chuveiro, camae algum tempo depois

( pessoal, digo algum tempo pois totalmente imersa na partolândia, já não tinha a mínima noção de tempo, a natureza é sábia neh!!mas foram horas), novo exame, e o Pupim me perguntou: Quanto você acha que tá? Eu disse: Já fico feliz com 5cm!!foi quando ele disse que já estava com 7 de dilatação.

Pura Alegria!!nosso tão planejado parto estava acontecendo e progredindo bem, só faltava a sala de parto liberar pra poder ir pra banheira!!

Enquanto isso, mais bola, chuveiro e chegou uma hora que a Cris falou pra caminharmos pela maternidade, assim fomos, na volta a feliz notícia, a sala de parto vagou!!!

Arrumamos as coisas e fomos, chegando lá novo exame e 9cm. Agora era entrar na banheira e relaxar, só que não kkkk

Já tinha amanhecido, a dor já estava intensa, contrações muito próximas, não dava muito pra descansar. Mas a banheira é tudo!!Minimiza muito a dor e o peso da barriga, ajudando a relaxar um pouco.

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A Cris só me dizia, chama o seu filho pro mundo e era só o que eu pensava, que faltava muito pouco pra ter ele nos braços. Isso que dava um gás a mais, pois nesse momento eu já estava exausta, o cansaço era maior que a dor!

Mais exercicios na banheira, cadeira de cócoras e nada do Antônio chegar!! Eu realmente já estava esgotada, no fim só pensava que não ia mais ter forças pra quando fosse necessário fazer força.

Tamanho era o cansaço que eu acabava dormindo, deitada  no peito do meu marido, entre as contrações.

Nesse momento pedi pro Pupim pra fazer mais um exame, precisava de algum ânimo!! Saí da banheira, exame feito e Pupim me diz: “Dilatação total, colo fininho, o Antônio tá chegando”.

Isso foi um bálsamo naquela hora, mas esse “chegando” não foi tão “chegando” assim.

Voltamos pra banheira e dá-lhe contração!! Enfim a cabecinha coroou e eu pude sentir meu filho, isso me dáva força, vinha contração ele descia um pouquinho mas depois subia de novo!!

Então depois de duas horas em expulsivo, quase 11hs de TP, as 11:35 de uma linda manhã de quarta feira, o Antônio quiz conhecer o mundo!! Foi pescado pelo papai que o entregou em meus braços, um momento mágico!! Nós 3 abraçadinhos naquela banheira, agora sim relaxando e contemplando a perfeição da criação de Deus: nosso lindo meninão!!

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Nosso Antônio nasceu com 3,210kg, 50cm, apgar 9/10, perfeitinho!!

Sim, conseguimos nosso tão sonhado parto humanizado, rodeado de afeto e respeito. Sim, eu consegui parir meu filho da maneira mais linda e natural possível, sem intervenções, sem analgesia, sem lacerações.

Com certeza tudo isso só foi possível pois estava rodeada de pessoas amadas e me sentia segura.

Primeiro agradeço meu lindo marido, que foi um guerreiro junto comigo, não me largou um minuto, incansável, não precisaram muitas palavras, apenas a presença e o carinho!

Não menos importante, os meus queridos Pupim e Cris, que com todo conhecimento e tranquilidade me conduziram a um lindo parto, um momento que nunca vou esquecer!

Essas foram as palavras do Pupim ao final de tudo: ” Faz muito tempo que não vejo uma grávida tão tranquila, conseguia rir com 9 de dilatação”. Realmente eu estava tranquila, me sentia segura e não podia acreditar que meu filho estava chegando e da forma como tínhamos planejado tanto tempo, na verdade muito além do que tínhamos sonhado, todo esse processo é surreal!!

Hoje, 2 meses depois, consigo entender o que amigas me diziam “você vai sentir saudade de parir”, confesso que achava um pouco demais, mas é a pura verdade. Já estou com aquela sensação nostálgica da saudade, saudade não da dor, é claro, mas daquele momento que você deixa de ser você, mergulha na partolândia, perde total os sentidos pois está completamente focada em trazer seu filho ao mundo, sem dizer da sensação única de ver o rostinho dele pela primeira vez!

Foi uma experiência transformadora, no dia 05/02/2014 nascemos todos, eu-mamãe, papai e Antônio!

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Porque parei de acompanhar partos no SUS (pelo menos por enquanto)!

3 de abril de 2014

Quando comecei como Doula em 2010 eu queria mudar o mundo. Eu queria na verdade abraçar o mundo,  e comecei a acompanhar partos no SUS e no particular. Os do SUS em sua grande maioria foram trabalhos voluntários.

O primeiro parto que acompanhei (quase 8 anos atrás) foi uma indução com 41 semanas. Começaram a induzir com misoprostol por volta das 9 da manhã, e o bebê nasceu perto das 4 da manhã do dia seguinte. Era uma mãe solteira, minha tia, e eu com apenas 16 anos (ainda não era doula). Vi a violência obstétrica de perto, ela ficou sem comer durante o trabalho de parto, e vi a negligência de perto. O bebê foi auscultado pouquíssimas vezes durante todo o processo. Mas mãe e bebê passaram bem no final.

O segundo parto (já era doula) foi um parto natural, com um bebê saudável. Mas me lembro que durante o trabalho de parto o bebê foi auscultado pouquíssimas vezes também. Ela também não pode comer e a água era racionada.

No terceiro parto eu estava na casa de outra gestante acompanhando seu parto, e enviei uma doula back up, que na época era a minha mãe pois não existiam doulas ativas na cidade que eu conhecesse. Como ela tinha experiência com partos foi atender. Chegou na casa da gestante já em trabalho de parto avançado, e recomendou que fossem a uma maternidade pública conhecida por fazer partos humanizados. Chegou com 9 cm, junto do marido. Depois fiquei sabendo pela gestante  que haviam feito uma episiotomia nela (corte na vagina), que ela julgou desnecessário.

No quarto parto era uma gestante de gêmeos que entrou em trabalho de parto espontâneo com apenas 32 semanas após uma infecção urinária tratada 1 semana antes na mesma maternidade. Chegou literalmente parindo e me encontrei com ela no elevador, fomos para a sala de parto onde ela pariu duas meninas com uma episiotomia. Cada bebê pesou cerca de 1,5 kg. E logo após o nascimento ela foi para a recuperação sozinha, não permitiam acompanhantes. Isso é desrespeito a Lei!

O quinto parto era uma suspeita de bolsa rota (bolsa rompida) sem trabalho de parto, porém com estreptococos positivo. A gestante queria o marido junto, mas só permitiam um acompanhante. Então eles combinaram que se fosse parto normal eu ficaria para ajudar no processo, e se fosse cesárea nós trocaríamos. No final ninguém da equipe soube dizer se ela estava mesmo com a bolsa rompida, mas internaram naquela noite, pois ela estava com 4 cm de dilatação. Ela acabou numa cesárea na manhã seguinte.

O sexto parto era de uma gestante grávida do terceiro filho, sendo uma cesárea prévia. Cheguei em sua casa já em trabalho de parto avançado, fomos para o hospital, e ela estava claramente no período expulsivo, pois fazia força durante as contrações. Mas o plantonista tentava achar o batimento cardíaco do bebê, procurando lá no umbigo dela. Foram os 3 minutos mais longos da minha vida, porque até eu sabia que estava nascendo. Sugeri para o residente que ele fizesse um toque e depois voltasse a auscultar. O outro obstetra deu a ordem para ele, e assim que tiraram sua roupa de baixo visualizaram a cabeça do bebê, já coroando. Rapidamente troquei de lugar com o marido que entrou com ela na sala de parto, e menos de 10 minutos o bebê havia nascido.

O sétimo era um casal que queria muito um parto domiciliar mas não tinha condições de pagar por um. Queriam ficar em casa o máximo de tempo, e só então ir para o hospital. Eu falei que tinha uma amiga que era Enfermeira Obstetra que trabalhava em um hospital mas não nessa parte da obstetrícia. Perguntei se poderia convidar ela então para participar, e ela faria procedimentos para que pudéssemos ficar em casa o máximo de tempo. Eles adoraram, e ficamos os 4 em casa, e ela indicou a melhor hora de ir, com 8 cm. Poucas horas depois nasceu o bebê de parto natural.

O oitavo cheguei com contrações ainda irregulares, e assim que se tornaram regulares e próximas recomendei que ela e o marido fossem ao hospital. Ela foi tomar um banho, quando o bebê começou a nascer, e ela pariu ali mesmo no quarto do casal. Como não foi um parto domiciliar planejado acompanhei ela até o hospital. Lá a primeira coisa que fizeram foi separar mãe do bebê. Cada um em uma sala. A trataram como uma bandida, que quase matou o filho parindo em casa. Riram, debocharam, e ainda soltaram a frase: “Ah você pariu de cócoras em casa que nem uma índia?”. Depois disso tudo, e do bebê passar por todos os procedimentos desnecessários, ainda a submeteram a uma curetagem para retirar restos placentários, sendo que a placenta estava intacta e foi enviada para o hospital. No fim do procedimento a puérpera perguntou se tinham muitos pedaços dentro dela,  e o residente respondeu: ”Não, tava limpinho.” É, foi castigo!

Depois desses partos, vários particulares foram surgindo e pude comparar como nas maternidades particulares as mulheres recebiam uma assistência melhor. Os partos no SUS em sua maioria foram traumáticos tanto para as mulheres quanto pra mim. Além de vivenciar procedimentos desnecessários, indicações de cesárea que não condizem com as evidências científicas, ainda vivenciava o preconceito. A maioria dos profissionais não sabe qual a função da Doula. Muitos nem ouviram falar sobre isso. E por não conhecerem recebem as doulas com preconceito. Em resumo esses não foram partos que fui para casa com o sentimento de ”dever cumprido”, e é óbvio o porque. Maternidades particulares atendem um número muito menor de gestantes do que o SUS. E a grande maioria dos nascimentos é feito através de cesáreas eletivas. Então quando tem uma mulher em trabalho de parto, é algo extraordináriamente incomum. No SUS esse número é muito maior, muitas vezes são 10 mulheres em trabalho de parto, para um ou dois obstetras atenderem. E a equipe de enfermagem fica sobrecarregada. Resultado: As mulheres e seus bebês deixam de ter o tratamento que precisam, o recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Lembro que na mesma época uma enfermeira que trabalha com partos em casa me disse que não acompanhava partos no SUS.
Perguntei porque e ela disse algo que me fez refletir: “Porque o parto é da família. Não é justo que nós profissionais ocupamos esse lugar.”

E ela tinha razão. A Doula ajuda e muito mulheres em trabalho de parto, e isso é comprovado em diversos estudos. Mas não pode ocupar o lugar de um familiar, que pode ser o marido, a mãe ou outro acompanhante. A mulher não deve escolher entre a  Doula e o marido. Porque a Doula é profissional que dá apoio físico e emocional, que fornece informação durante o processo, que incentiva, estimula como nenhum acompanhante vai fazer. Mas o familiar trás naturalmente consigo o vínculo, o carinho, que só uma pessoa muito próxima pode (e deve) fornecer. E na hora de tomar decisões quem deve decidir é sempre a parturiente, e como ela geralmente não consegue pensar muito, é quando o acompanhante fica responsável pela decisão. A Doula nunca deve falar pela gestante e sim para a gestante.

Então o ideal é que Doulas não sejam tratadas como acompanhantes e sim como profissionais. E o ideal é que as maternidades públicas permitam que essas profissionais acompanhem partos, junto dos acompanhantes, ajudando esses casais. Esse é o modelo ideal da Doula no SUS na minha opinião, sendo cadastradas nas maternidades, e acompanhando parturientes que sentem que precisam dessa atenção especial.

Esse modelo existe em maternidades públicas do Brasil, mas aqui em Floripa tudo anda mais devagar. Em outros estados como SP e RJ existem também as famosas CASAS DE PARTO, que são maternidades públicas próprias para parto naturais, com gestantes de baixo risco. Vejo frequentemente colegas Doulas que acompanham partos pelo SUS junto dos companheiros das gestantes e dá muito certo. Resultado: Mães felizes, saudáveis, com bebês saudáveis.

Mas eu tenho fé, esperança que isso vai mudar logo aqui. Hoje eu não quero mais mudar o mundo, nem abraçar todo mundo. Eu só quero que as mulheres tenham o que é de direito delas. Mas isso não vem de graça, nós mulheres precisamos reconquistar esse poder.
Cristina Melo
Mãe da Sofia (7 anos)
& Doula

 

Retirar a força uma mulher de sua casa, e operá-la contra sua vontade. Coisas que só acontecem no Brasil!

3 de abril de 2014

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Passei a quarta-feira toda irritada e nem o meu marido me aguentava mais. Quando ele me perguntou porque eu estava tão chata, nem eu sabia o que responder. Então parei por alguns minutos para relaxar, e pensar o que estava me incomodando tanto, e a única explicação era o caso da Adelir. Li várias matérias sobre o caso, li o que a Doula escreveu, a opinião de vários obstetras humanizados, e senti como se fosse eu a mulher obrigada a uma cesárea.

Talvez porque eu tenha passado por uma cesárea desnecessária, com apenas 17 anos, sem qualquer informação. Já tinha acompanhado parto, já havia cuidado de muitos bebês, mas tudo por paixão e instinto. E hoje a minha missão como Doula e impedir que as mulheres sofram a mesma mutilação que eu sofri. uma cirurgia desnecessária marca muito mais que a pele, marca a alma.

Ah Cris que drama! Você que queria muito um parto natural, por saber dos benefícios, por ver como o bebê é bem recebido, como a mãe tem contato imediato com ele, e passou por uma cirurgia desnecessária, não sentiu a mesma coisa? Duvido!
Se você não sentiu frustração, então não queria tanto assim.

Vamos para o caso da Adelir. Ela tinha uma Doula, então era uma mulher bem informada, e quando digo informada é porque ela sabe o que as evidências científicas mostram. Os benefícios do parto normal, a segurança de fazer um parto normal após duas cesáreas, que aliás é uma coisa MEGA COMUM no exterior, a segurança de aguardar o trabalho de parto ativo em casa, e os riscos de uma terceira cirurgia.

Ela tinha o apoio do marido e fez o pré-natal até o último trimestre, e por orientação do posto foi ao hospital no dia em que iniciaram as contrações, apenas para checar o batimento do bebê. Chegando lá a médica do plantão com certeza se sentiu afrontada, pois parto normal após duas cesáreas não é coisa de Deus, e a mulher era uma bomba relógio. Indicou a cesárea após os exames mostrarem que tudo estava bem.

A gestante e seu marido recusaram, queriam aguardar o trabalho de parto ativo para voltarem a maternidade, e terem um parto normal. Já que ela tinha todas as condições para isso. A médica ficou enfurecida, mandou que eles assinassem um termo de responsabilidade antes de ir para a casa, e assim fizeram. Mas agora o EGO falou mais alto. Ela pelo que tudo indica é casada com um advogado, que iniciou essa barbaridade, juntos foram no ministério público, e com a ajuda de uma amiga também Juíza, arrancaram de casa a mulher 12 horas depois, com escolta da brigada militar e uma ambulância.

Para tudo!!!!


Se a mãe e bebê estavam morrendo, se estavam em risco como a obstetra disse na hora que indicou a cirurgia, como que 12 horas depois estavam AINDA vivos e super saudáveis? E tem mais, quanta gente MORRE esperando ambulância, que inclusive as vezes vem com o desfibrilador sem bateria (aconteceu essa semana), enquanto isso mandam uma ambulância para a casa da parturiente que não estava precisando de ajuda?
E pra completar, porque precisam de 8-10 brigadianos (policiais militares) para levar uma mulher ao hospital?
Quem tiver o mínimo de bom senso vai entender a minha indignação!

As duas cesáreas prévias

Muita gente culpa a mãe, chama ela de ignorante, xinga a doula, porque é óbvio que uma mulher com duas cesáreas deve ter uma terceira cesárea.

Não, não é óbvio. Os riscos aumentam em cada gestação e parto, quando a mulher tem uma cesárea prévia. Por isso o trabalho de parto ATIVO deve ser bem monitorado. Quando a Adelir procurou o hospital, ela NÃO estava em trabalho de parto ainda, estava iniciando contrações, sem hemorragia, com bebê saudável e se sentindo bem. Só foi para não tomar esporro depois, quando chega em trabalho de parto avançado.

EU já acompanhei parto de gestante com duas cesáreas, eu conheço mulheres que pariram após duas cesáreas, no exterior, países de primeiro mundo é NORMAL fazer parto NORMAL em mulheres com mais de duas cesáreas. Mas no Brasil, onde a copa será motivo para cirurgias eletivas, o que não é indicação de cesariana?

O bebê em pé  no útero e/ou sentado

Bebê pélvico não é indicação de cesárea. É uma contra-indicação por ser um parto mais complicado que requer experiência do profissional que vai atender o parto. Mas bebês nascem de bumbum todos os dias no mundo todo, principalmente no Exterior. Duvida? Procura no Youtube “breech natural birth”. E se o casal conhecendo os riscos (cabeça derradeira) ainda quiser fazer o parto assim, eles PODEM. É do direito deles escolher.
E se o obstetra não quiser fazer, ele que diga “Eu não vou atender seu parto assim” e não ir atrás do Ministério Público e OBRIGAR a mulher a fazer algo que ela não quer. E por último, em nenhum momento foi mostrado ao casal que o bebê estava mesmo pélvico, e quando a gestante pediu um requisição para fazer um ultrason particular de qualidade superior aquele, a médica NEGOU o pedido e foi ainda mais grosseira.

Então antes de falarem mal do casal, da parturiente, vejam que é muito mais do que proteger o bebê e salvar vidas. O caso de Torres/RS foi uma briga de poder. A obstetra falando mais alto, passando por cima dos desejos do casal, dos DIREITOS deles, inclusive do direito do PAI assistir ao nascimento da FILHA.

Foi algo sem precedentes e que só aconteceria no Brasil, onde tudo se dá uma jeitinho Brasileiro. Agora, quando o próximo bebê morrer numa maternidade por negligência médica, no próximo caso de estupro, no próximo caso onde atendimento foi negado a um paciente doente que vem a óbito, eu quero ver se a Justiça caminhará tão rápido.

Adelir, lamento muito que você tenha passado por tudo isso, tudo tão desnecessário. Lamento sua dor física e emocional. Lamento que você tenha engravidado no Brasil e espero mesmo que vocês processem tanto o hospital quanto a obstetra do caso! Forte abraço!

Cristina Melo
Mãe da Sofia de 7 anos
& Doula

Mulheres que viajam em busca do direito de parir

27 de março de 2014

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Não, elas não moram na roça e precisam viajar horas ou dias de barco, carroça para chegarem em um hospital próximo. Infelizmente para muitas mulheres que vivem no interior do Brasil isso é uma realidade, que envolve descaso, e muita política. O post hoje não é sobre isso. O post é sobre mulheres que vivem em cidades com shoppings, hospitais, maternidades, mas que não podem ter uma coisa simples: O direito de parir, de parir sem violência.

Por isso um número cada vez maior de mulheres  acaba viajando nas últimas semanas de gestação ou até mesmo durante a fase inicial do trabalho de parto, rumo Florianópolis, onde fazem acompanhamento com obstetras que vão respeitar esse direito. A cesárea é uma epidemia nacional, e  fugir de uma cesárea desnecessária está cada vez mais difícil. Em cidades pequenas onde pré-natal é feito com o intuito de interromper a gestação por via cirúrgica, assim que o bebê está a termo, parto normal não é algo negociável. Parto humanizado então é motivo de deboche.

Toda mulher tem o direito de gestar, toda mulher é obrigada a gestar por lei mesmo quando a gestação não é bem vinda. Mas nem toda mulher tem o direito de parir seu filho por via vaginal.

E em muitas cidades onde os partos acontecem, são aqueles cheios de intervenções desnecessárias feitas de rotina em todas as mulheres, como a episiotomia. Partos violentos que traumatizam a mulher de maneira que ela nem queira mais engravidar, muito menos parir. Por causa desses traumas muitas mulheres hoje optam pela cesariana, por MEDO!

E toda semana recebo pelo menos um e-mail de alguma gestante que mora bem longe, pedindo ajuda, conselhos, pois ninguém na sua cidade faz parto normal. Pois nenhum obstetra apoia o parto, pelo contrário, diz que parto normal é anormal e o bom é a cesárea.
E praticamente todo mês eu acompanho uma gestante que não mora em Floripa e que veio de outra cidade (até mesmo estado) para ser acompanhada por uma doula, e ser atendida por um obstetra que apoie sua decisão.

Se você está nessa situação, querendo um parto humanizado e na sua cidade isso não é possível, considere viajar para uma cidade próxima. Não descarte sem antes fazer as contas, pesquisar e se informar. O parto acontece só uma vez, e a equipe pode fazer toda a diferença. Se isso não for possível, faça valer os seus direitos, toda mulher tem o direito de parir.

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Foto do nascimento da Natália, usada na divulgação do filme “O renascimento do parto”

Provavelmente você já viu a foto que postei acima. Mas você não deve saber que a Ana Carolina, cujo parto eu tive a honra de acompanhar,foi uma dessas mulheres que viajou para parir. E ela conta um pouco sobre essa experiência:

”Ana Carolina Pacheco Rossetto - Bom, sempre sonhei em ter um parto humanizado e dentro de todas as alternativas que eu tive seria ter um parto domiciliar só com o meu esposo, ele é médico, mas que estaria fora de cogitação, por insegurança nossa e a outra alternativa seria buscar um ambiente hospitalar que tivesse de requisito o parto humanizado.  E eis que viajei até Floripa para realizar o meu sonho… mesmo pegando fila na via expressa com contrações valeu cada segundo!”

Outra gestante que acompanhei, cujo relato você pode ler aqui, foi a Anelise que veio de Lages/SC em busca de um parto humanizado, e ela conta: ”Moro em Lages/SC, e infelizmente por aqui não encontrei um médico que me passasse a segurança e apoio que eu desejava. Logo veio a decisão: Vou parir em Florianópolis.”

A Gabriela Grando também tem relato no blog, e saiu de São Paulo e conta ”Quando descobrimos a gravidez decidimos ter um parto mais natural possível! Somos de SC mas moramos em SP! Decidimos ter o nosso parto humanizado em Floripa pois encontramos lá as pessoas certas e o lugar certo para nos ajudar a realizar o nosso sonho! Minha mãe mora lá, o que ajudou muito, e meu marido me levou 1 mês antes da data prevista e ficamos no aguardo do nosso bebêzinho!”

Amabile Goedert Campos - “Fui para floripa para ter um parto mais humanizado. Na minha cidade a maioria dos médicos são cesaristas. Para fugir da cesaria, fui atrás de um obstetra a favor do parto natural, busquei auxílio com uma doula maravilhosa e um
Hospital capacitado (instalações e equipe). Foram vários deslocamentos de 45km (casa-floripa) ao longo de toda a gestacao, confesso que muitas vezes foi cansativo, mas ter o parto que almejava não tem preço!”

A Thayse , leia o relato aqui, saiu de Imbituba e me contou: ”Em momento algum eu senti medo! Assim como foi feito, ao menor sinal de TP eu entraria em contato contigo! As primeiras contrações vieram à meia noite, conversamos com vc, arrumamos o que faltava e tocamos pra Floripa, um pouco antes da hora, mas queriamos evitar o trânsito. Estava amanhecendo quando chegamos na casa da minha sogra, onde ficamos mais umas boas horas esperando a hora certa de ir pra maternidade! Tudo muito sossegado. Quanto a escolha de parir em Floripa, era o mais sensato a ser feito, era o unico lugar onde eu conseguiria um parto hospitalar realmente humanizado!”

Meiry Machado - “Buscávamos por um parto humanizado, acompanhado por profissionais qualificados e também adeptos a essa idéia. Infelizmente a cidade aonde moramos, Imbituba cerca de 90km de Florianópolis, não possui tais recursos. Logo, me deslocar durante toda a gestação para ter o acompanhamento em Floripa e enfrentar o trânsito da via expressa, br101, em uma segunda-feira em trabalho de parto ativo, foi muito pequeno se comparável com a felicidade e segurança de parir sem nenhuma intervenção desnecessária.”

Luciele Frazão de Souza  – “Nesta segunda gestação já vinha com um peso nos ombros muito grande da cesárea anterior, me preparava para mais uma futura e triste experiência (outra cesárea) quando me deparei com a possibilidade de fazer tudo diferente! Descobri o parto humanizado emergulhei profundamente na idéia, vi ali a oportunidade de renascer! Mostrei aquele mundo Lindo ao marido e falei para ele quão importante seria viver esta experiência. Foi ai que começamos a longa caminhada em busca do sonhado parto! Vimos que seria impossível conseguir isto em Pato Branco-PR onde residimos, aqui parto normal é só para quem não tem dinheiro para pagar uma cesariana, ou seja, cheio de intervenções e não era isso que buscávamos. Além de que, ninguém se arriscaria a fazer um parto após cesárea! 
Viajamos 750 km parar PARIR! E foi a melhor das experiências já vividas! Faríamos tudo novamente! Família unida, alma lavada e filho saudável nascido na sua hora e da forma mais respeitosa!”

Não desista do seu parto!!!!

Uma boa hora a todas.

Cris Doula

Como lidar com a ansiedade nas últimas semanas?

27 de março de 2014

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A minha gravidez não foi muito longe pois a Sofia nasceu com 38 semanas e 4 dias, através de uma cesárea desnecessária, como eu explico aqui.
Mas me lembro muito bem que depois que completei 36 semanas, e já tinha dois centímetros de dilatação (o que é normal) a ansiedade aumentou 200%.

Chegando nas 37 semanas então, que o médico diz que o bebê está ”pronto” pra nascer, ah pensar no bebê prontinho e ainda na barriga, talvez por mais 5 semanas, chega a ser uma tortura. Como trabalho com gestantes eu vejo de perto como a ansiedade atrapalha inclusive na hora do trabalho de parto. E com a ajuda dessas mulheres, que já pariram, reuni algumas dicas por quem está (ou vai passar) por essa fase.

A data provável é mais improvável do que você pensa

A data provável do parto que os médicos calculam com base  na data da última menstruação e do primeiro ultrason, só serve para UMA coisa. Saber que o bebê provavelmente nascerá 15 dias antes ou depois deste dia. Uma minoria vai parir nesta data então não se sinta culpada de você for parte da maioria.

Não crie expectativas

Quase toda gestante de primeira viagem tem certeza que o bebê vai nascer antes da data prevista, mas a realidade é que algumas pesquisas já mostraram que primigestas (primeira gestação) entram em trabalho de parto espontâneo entre 40 e 41 semanas.

Não divulgue suas expectativas

Pior do que enfiar na cabeça que o bebê vai nascer dia X (e sempre antes da data prevista – 40 semanas) é espalhar isso para amigos e familiares. Porque agora além de lidar com a sua ansiedade e de seu companheiro, você vai ter que lidar com a da sua família e amigos. Se divulgou no facebook então danou-se, porque até quem você nem conhece vai perguntar pra quando é o bebê.

Não aposte suas fichas na troca de lua

Os antigos dizem que a lua influencia e muito no dia do parto. Lua cheia é batata se você estiver a termo (mais de 37 semanas), que a lua minguante os partos são mais longos, que na crescente nascem as meninas, e assim vai. Não, eu não quero ofender minhas ancestrais, porém nenhuma evidência científica (sim, já estudaram isso) comprovou alguma relação com a lua e o aumento de parturientes nas maternidades.
É, acreditar não faz mal algum… mas pode gerar uma frustração quando a lua não desencadear o trabalho de parto. Além disso, não divulgue para os outros essa informação.

Ignore as pessoas e as histórias ruins que elas contam

Como se não bastassem os medos que cada gestante carrega, as pessoas parecem ter prazer em colocar mais medos. Histórias do tipo ”o bebê da minha vizinha passou do tempo…” são muito comuns. Não escute. Afaste-se de pessoas assim. Se for o caso pare de atender o telefone, de entrar no facebook, faça o seu ninho para receber seu bebê e afaste os predadores. Se ficar em casa a deixar ainda mais ansiosa, vá dar um passeio, um lugar que você possa estar em contato com a natureza, recarregar as energias e descansar. Existem técnicas de indução natural de parto, algumas ensino aqui, mas não faça nada na obrigação. O bebê tem o tempo de nascer e precisamos aprender a ter paciência e respeitá-lo.

Paciência, você não tem outra opção!

Já que quem decide a hora de nascer é o bebê não nos resta nada a fazer além de esperar.  Aproveite que nunca esteve tão perto, e curta sua gestação. Acredite, você vai morrer de saudades depois. Se não for da barriga será do sossego de comer a hora que quer, dormir, e até assistir um filme (hehehehe). Sua vida está prestes a dar um giro de 360º e é uma mudança maravilhosa porém radical. Leia livros sobre pós-parto, sobre a chegada do bebê, participe de um grupo de apoio, pois você vai precisar. A gestação existe para que possamos nos preparar para o parto e para a vida que vem depois. O parto é um dia só (as vezes dois) mas o puerpério e a vida com esse novo ser, é para sempre.

Tenham uma boa hora!

Cris Doula