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Como muitas mulheres iniciei a gestação pensando em fazer uma cesárea, para mim era lógico, todas as mulheres da família desde a geração da minha mãe tinham feito e parecia ser o “normal”. Mas já nos primeiros meses entrei em contato com duas pessoas que tiveram parto normal e me passaram a sua experiência, a minha instrutora de pilates que teve no HU e achou ótimo, e uma amiga do meu marido que teve no ilha um parto humanizado com o Dr. Marcos Leite, que mais tarde escolhi para ser o meu médico também. E fiquei intrigada com as conversas, mas o que mais me marcou foi escutar destas mulheres o que elas sentiram depois de parir o seu filho, elas me contaram que era uma sensação de poder, que sentiam como se pudessem fazer qualquer coisa, que eram realmente poderosas!!! Isso foi o que me levou a procurar informação sobre o parto natural.

E pesquisei e li muito, comecei pela internet, depois livros, depois fiquei sabendo sobre as doulas, entrei em contato com a Cris, e finalmente lá pelo 5 mês decidi, vou parir o meu filho! Aí comecei e me preparar realmente, e a minha família, principalmente o marido e minha mãe que apesar de ter feito 3 cesáreas me apoiou incondicionalmente. Fiz curso de preparação para o parto, exercícios de pilates, exercícios para o alongamento do períneo (comprei o tal do epino), fiz 4 sessões de hipnose-terapia para me ajudar a como lidar com a dor do parto, além de muitas leituras. Ah, também troquei de obstetra, a minha que me acompanha há muitos anos até fazia parto normal, porém, pelo que conversei com ela, era bastante intervencionista, fazia de tudo para acelerar o processo, e então no 7 mês mudei para o Dr. Marcos Leite e amei.

Nisso, fizemos uma ultrassom e o meu menino encontrava-se na posição pélvica, sentadinho. Aí acompanhamos até 37 semanas, enquanto isso eu fazendo tudo quanto é exercício em casa para ajudá-lo a virar e também aquelas crenças populares, e paralelamente eu lia e assistia vídeos de partos pélvicos e tentava convencer o meu marido e a minha mãe de que não tinha problema nenhum, se ele quisesse ficar sentado, então assim seria, estava decidida a ter o parto normal de qualquer jeito, apesar de saber que pélvico seria mais complicado. Com 37 semanas o meu menininho não virou, então decidimos tentar e versão externa, e obtivemos sucesso, rapidamente o Dr. Pablo conseguiu virá-lo com um mínimo de desconforto para mim. Fiquei super feliz, agora estava tudo certo, não tinha mais dúvidas de que conseguiria o meu parto natural.

Quando cheguei em casa fui logo para a bola fazer exercícios para ajudá-lo a encaixar por orientação da Cris e no dia seguinte acordei super desconfortável, realmente me sentindo grávida, coisa que até então não tinha sentindo, eu trabalhava, fazia pilates, caminhadas, dirigia, tudo normalmente, não senti nada a gravidez inteira além de azia, e naquele dia tudo mudou, não conseguia andar direito, a perna travava o tempo todo, sentia uma pressão no púbis, e mesmo ficar sentada ou deitada me incomodava. Então tivemos uma consulta com a Cris naquele dia e com o Dr. Marcos que confirmou que o bebê estava na posição correta e encaixado, pronto para nascer. A partir deste dia comecei a rezar e pedir pra ele nascer logo, pois não iria aguentar mais 3 semanas daquele jeito, e também parei de trabalhar na sexta-feira, iria entrar em licença maternidade com 38 semanas. Fiz uma última ultrassom naquela semana que indicava um peso de 3.800kg que era ótimo, ele já estava bem grande.

No domingo a noite fui dormir super tarde, imaginando que a segunda seria o meu primeiro dia de licença, no entanto naquela madrugada as 4:30hs da manhã acordei com a cama molhada e depois constatei que a bolsa tinha rompido. Eu não estava sentindo nada, apenas nos últimos dias as contrações de teste tinham se intensificado e naquela noite senti muitas antes de dormir. Então acordei o meu marido e disse que era o dia, o nosso menino tinha se apressado um pouquinho. Avisei a Cris e liguei para o Dr. Marcos pois eu tinha streptococus positivo. Marcamos de encontrar com ele no ilha as 7:00hs da manhã para iniciar o antibiótico. Eu estava muito tranquila, terminei de arrumar a mala, fui tomar café, tirei umas últimas fotos da barriga, me pesei, rezei, enfim, estava calma, muito satisfeita, o meu menino tinha se apressado, portanto também não deveria estar tão grande e estava na posição correta, e eu estava preparada.

Chegando na maternidade iniciei o antibiótico e indução com aquele comprimido vaginal, e depois saímos para caminhar, eu ainda não tinha dilatação e as contrações estavam espaçadas. Caminhamos por umas 3 horas, e nesse tempo as contrações começaram a ficar ritmadas, de 5 em 5 min e depois de 3 em 3 minutos, eu já tinha que parar de andar e me concentrar, a dor era suportável, eu só pensava, vou conseguir, está tudo dando certo. Mantivemos contato com a Cris e por volta do meio-dia voltamos para o quarto, e ela nos encontrou, nesta hora as contrações já estavam mais fortes e chegando lá é que percebi que a bolsa estourou, fez aquele “ploc” e foi muita água que saiu! Ainda consegui almoçar e depois disso as contrações pegaram, cada vez mais fortes, eu já não conseguia falar e não me lembro muito dessa parte, lembro que tentei posições variadas, e chuveiro, e a massagem da Cris e do meu marido ajudaram bastante. Eu já berrava nesse momento e cochilava entre as contrações, até sonhava!

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Depois acredito que por volta das 16hs da tarde fomos para a sala de parto e fui para a banheira, não acho que me aliviou muito para falar a verdade, mas fiquei um bom tempo. Lá pelas 18hs da tarde, lembro de perguntar que horas eram e pedir para fazer mais um exame de toque, eu já estava com muita dor, quase não aguentava mais e considerei a analgesia. Eu estava com 4cm de dilatação e falei para o Dr. Marcos, mas só isso, acho que vou precisar de analgesia. Ele e a Cris me convenceram a esperar mais um pouco pois depois disso costuma ir um pouco mais rápido o processo e sempre me apoiavam dizendo que eu estava indo muito bem. Pedi para medirmos de novo em 1 hora para ver a evolução. Nessa uma hora eu acho que delirei, meu aprendizado da hipnose já não adiantava muito, eu tentava visualizar o expulsivo, meu corpo se abrindo e o meu bebê nos meus braços mas a dor já era muito forte. Eu ficava incomodada porque acho que gritava muito alto, e isso me desconcentrava um pouco.

Depois de 1 hora fizemos outro exame de toque e estava com 6 cm se não me engano, mas mesmo assim pedi a analgesia, já não aguentava mais. Lembro de ir para a sala de cirurgia fazer a analgesia pela escada pois a Cris foi me puxando, e eu gritando nos corredores. E lá de conversar com os médicos perguntando se eu era a mais escandalosa do dia! Depois da analgesia a dor realmente ficou bem suportável, mas eu continuava sentindo as contrações. O problema é não sentir as pernas, tive que voltar de cadeira de rodas. De volta na sala de parto estava melhor, mais relaxada e as horas seguintes passaram muito fácil. Conforme o tempo ia passando fui voltando a sentir as pernas e a conseguir mexê-las e a dor começou a ficar mais forte também. Aí fizemos mais alguns exercícios com a bola mas não pude mais voltar para a banheira. Isso é uma coisa que não sabia, que depois da analgesia não poderia voltar para a banheira, por causa do catéter nas minhas costas, aquilo é um pouco incômodo. Acho que por volta das 20 hs o Dr. Marcos fez mais um exame de toque e eu estava com dilatação total. As contrações tinham dado um tempo e eu esperava ansiosa o expulsivo.

Nessa hora até recebi a minha mãe na sala de parto e disse para ela ficar tranquila e ir para casa pois poderia demorar ainda. Logo depois comecei a sentir dor de novo e vontade de fazer força, então apagamos as luzes e comecei a procurar uma posição que ficasse mais confortável, de cócoras na cama foi como ficou melhor, utilizamos aquela barra para apoio na cama. Comecei a sentir muita dor na lombar e fazia muita força com o auxílio do Dr. Marcos. Ele, a Cris e meu marido me incentivavam o tempo todo, lembro deles falarem que estava quase mas eu sabia que ainda ia demorar, era só para me manter animada. Eu estava bastante cansada já, mas lembro de fazer toda a força que podia com a respiração trancada como tinha treinado nos meus exercícios com o epino. O Dr. Marcos me incentivou a trocar de posição mas depois de duas horas aproximadamente o bebê não desceu quase nada e o coraçãozinho dele começou a bater diferente. Na minha cabeça ele ia sair, eu iria conseguir parir o meu filho, só iria demorar um pouco mais, mas de repente o Dr. Marcos disse que estava um pouco difícil e falou que iria tentar me ajudar com o vácuo, porém ele não conseguiu colocar, iria acabar me machucando.

Depois disso ele disse que não daria mais, que teríamos que ir para a cesárea. Foi um balde de água fria, para mim tudo estava indo bem, mas ele disse que o bebê estava entrando em sofrimento e não estava perto de nascer, que seria melhor a cesárea. Fiquei muito triste, não acreditava que tinha chegado tão perto e não iria conseguir! Perguntei se não tinha jeito mesmo e ele disse que não, vamos para a cesárea. Nesta altura eu já estava com muita dor, mas piorou muito mais quando ele disse que iria para a cesárea, me colocaram na cadeira de rodas me cobriram e fomos para a sala de cirurgia. Foi terrível, além da dor, sair do ambiente da sala de parto, quente, escuro e aconchegante e ir para a sala de cirurgia, fria e clara, foi horrível, lembro de tremer de frio e gritar, pedindo logo a analgesia, já que era para fazer cesárea que me tirassem a dor logo.

A Cris e o Dr. Marcos se mantiveram calmos o tempo todo, e a Cris sempre do meu lado me apoiando e dizendo que eu tinha feito tudo que podia. Eu reclamei muito e chorei muito, foi muito frustrante chegar até onde cheguei e ir para a sala de cirurgia. Enquanto eu reclamava a cirurgia acontecia e de repente o Dr. Marcos falou para baixar o campo que iria nascer. Quando vi aquela carinha linda e ouvi aquele chorinho as minhas reclamações cessaram, só me preocupei se ele estava bem, pedi para o meu marido acompanhá-lo e não deixá-lo sozinho. E quando colocaram ele junto de mim, na minha face para beijá-lo senti aquele cheiro maravilhoso de bebê e vérnix, é um cheiro inconfundível, acho que não vou esquecer daquilo nunca. Depois levaram ele para fazer os procedimentos padrão, mas não sugaram nem colocaram colírio nele.

Pesou 4.120kg e 51cm. Depois a Cris colocou ele sobre mim e ali ele ficou um tempo. Após terminada a cirurgia na sala de recuperação ele também ficou o tempo todo comigo, lembro que falei o tempo todo, batemos altos papos, nem lembrei que não era bom ficar falando depois da cirurgia por causa dos gases. A minha recuperação foi difícil, senti muita dor física e emocional também, acho que até os 40 dias eu chorava cada vez que alguém falava do parto, fiquei muito triste e decepcionada comigo mesmo, achei que tinha sido fraca e por isso não consegui o parto normal.

Demorei para me perdoar e assimilar que não consegui, mas hoje estou melhor, sei que dei o melhor de mim, fiz tudo que podia, mesmo que o meu melhor não tenha sido o suficiente para trazer o meu filho ao mundo por um parto normal. Mas dói cada vez que vejo a cicatriz no espelho. E doeu muito nos primeiros dias não conseguir trocar as fraldas do meu filho e nem dar banho nele, a sensação de impotência foi terrível, mas graças a Deus passou.

Naquele período dei tudo de mim para amamentar, e tive muitas dificuldades, pouco leite no começo, tive que complementar até 3 semanas, e tive mais dúvidas se conseguiria, mas com a ajuda do meu marido, da minha mãe e da Carol amiga materna consegui e hoje a minha maior alegria é ter o meu filho mamando muito no peito e ver o leite vazando pelo meio seio.

O que aprendi com tudo isso é que não podemos controlar tudo, por mais que nos preparemos para um parto normal uma cesárea sempre pode ser necessária e temos que estar abertas para aceitar, não é bom, mas quando necessário não há nada o que fazer a não ser aceitar. E quanto menor for o tempo de luto melhor, o parto é um rito de passagem, o mais importante é o que vem depois, criar, cuidar e amar o nosso filho!

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Sobre a Cris não tenho palavras para expressar a minha gratidão, desde o primeiro encontro foi empatia a primeira vista, o apoio dela antes, durante e depois do parto foi fundamental, sem ela tudo teria sido muito mais difícil!

Bárbara Puel


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