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A espera e a chegada da Catarina – 27 de novembro de 2016

A cada dia eu tenho mais certeza de que não estamos na vida das pessoas por acaso e que estamos ligados aos seres amados por um fio, um fio invisível que não enxergamos com os olhos físicos, só com o coração. É assim que eu penso que foi constituída a minha família, por uma força muito maior do que o destino, por um amor que ultrapassa o meu entendimento tão limitado. E com a Catarina também foi assim. Acredito que o meu coração começou a deseja-la no dia 5 de abril de 2012, o dia em que a Sara, sua irmãzinha mais velha, nasceu.

Eu não sabia quem seria o outro bebê que Deus mandaria para nossa família, se seria menino ou menina, como se chamaria; mas no dia em que olhei pra Sara pela primeira vez eu tive certeza que queria mais. A maternidade definitivamente não é um mar de rosas. Junto da Sara vieram muitos conflitos internos, renúncias e dores, emocionais e físicas. Mas apesar das dificuldades, pela primeira vez eu me sentia completamente feliz.

Quando a Sara completou três anos eu engravidei, mas dias depois tive um aborto. Fiquei triste e frustrada, mas não fiquei arrasada; eu sabia que o nosso bebê viria. Passaram oito meses e eu tive a certeza que estava grávida de novo, mesmo com dois testes de farmácia e um de sangue negativos. A minha sensibilidade acusava que o meu bebê já vivia em mim. Três dias depois eu repeti o exame e “tchanã”: Positivo! Eu e o papai, Willian, demoramos uma semana para contar para a Sara, que então guardou o segredo conosco por mais uns dias, até que contamos aos nossos pais e depois aos familiares e amigos mais próximos. Que alegria ver as pessoas felizes com a nossa felicidade!

Como nossa primeira experiência tinha sido excelente, não tivemos dúvida sobre o parto natural. Também decidimos que seríamos acompanhados pelos mesmos profissionais do parto da Sara, o nosso querido obstetra Fernando Pupin e a Cris, nossa super doula… Eles faziam parte do pacote gestação hehe. A Barriga cresceu rápido e com 16 semanas descobrimos que teríamos outra menina. Foi emocionante como a Sara reagiu à notícia: “obrigada mamãe, obrigada papai, obrigada Deus”, gritava ela pela casa.

Ali ela já começava a amar a irmãzinha. Foi a Sara quem escolheu o nome, ajudou a definir o enxoval e as cores do quarto que as duas dividiriam. Durante a gestação intensificamos nossa atenção a ela, tentando preparar seu coraçãozinho para a chegada da irmã. E num ano cheio de acontecimentos, uma gestação com alguns resfriados, viroses e até uma herpes-zoster, todos os dias eu ia dormir muito feliz e de barriga cheia, cheia de amor!

Agora eu volto a escrever sobre aqueles fios invisíveis que nos ligam aos seres amados. Quase no fim da gestação eu e o Willian ganhamos um lindo presente de um casal muito especial para nós, uma afilhada, a nossa Joana. Que honra! Algumas semanas depois ela quis nascer e eu corri para a maternidade para cuidar da irmãzinha mais velha, a Rebecca, enquanto o papai Rafael acompanhava a mamãe Priscilla no trabalho de parto. Era 20 de outubro, praticamente um mês antes da minha DPP. Naquele dia tão especial eu tive o prazer de ver a minha afilhada chegar ao mundo em um lindo parto na água. Meu coração se encheu de amor por ela e de orgulho por aquela família linda e eu senti uma inundação de ocitocina em mim.

Quatro dias depois o meu tampão mucoso começou a sair. Opa! Eu estava só com 35 semanas e fiquei preocupada, mas sabia que poderia ser um processo lento. Avisei à Cris e fiquei monitorando. No mesmo dia a perda do tampão cessou, mas a ansiedade veio com tudo e cada dia passou a ser eterno. Na consulta de 38 semanas o exame clínico mostrou que eu já estava com cinco centímetros de dilatação e eu saí da consulta achando que iria parir naquele dia. Ao mesmo tempo em que eu queria entrar em trabalho de parto, eu também estava curtindo a barriga enorme e as mexidas frenéticas da Catarina. Eu sabia, por experiência própria, que sentiria falta dela dentro de mim.

E no dia 27 de novembro, às 3h50 da manhã, com 40 semanas e 5 dias de gestação, senti uma fisgada forte e nosso colchão ficou encharcado: “Amor, minha bolsa rompeu”. O William pulou da cama e eu mandei uma mensagem pra Cris que me respondeu em seguida. Enquanto eu ia para o chuveiro o papai ligava para a fotógrafa, a querida Lu Guilherme que ia nos acompanhar. Antes que a gente pudesse ligar para o Pupin as contrações começaram com tudo e eu tive que interromper o banho para ir à maternidade. A Sara tinha pedido para dormir na casa da vovó naquela noite, o que facilitou a nossa logística, e uns 30 minutos depois já estávamos indo para o Ilha.

Pegamos a Cris em casa e pedi para ela ligar para o Pupin. Antes das 5h da manhã eu já estava na sala de parto fazendo o exame de toque e para minha grata surpresa o meu colo do útero já estava com nove centímetros de dilatação. Tenho que admitir que achei que seria um parto à jato, pois eu já sentia muita vontade de fazer força.

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A banheira estava uma delícia, tão boa que fez as minhas contrações diminuírem, então a Cris sugeriu que eu ficasse um pouco no chuveiro. Parece que durou uns dez minutos, mas o papai disse que fiquei mais de uma hora lá, sentindo a água cair sobre o meu corpo. Era só eu e a Catarina. Eu estava imersa na “partolandia”, superconcentrada, ouvindo e cantando baixinho as músicas da playlist que havíamos levado para a maternidade. No chuveiro eu não sentia dor, só vontade de fazer força, mas eu sabia que naquele momento a dor era minha aliada, ela tinha que existir. Então fui para o banco de cócoras, na tentativa de que a gravidade nos ajudasse.

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Eu sentia dores moderadas e uma agonia indescritível, mas as contrações duravam poucos segundos, o suficiente apenas para eu esmagar as mãos do papai que estava sentado atrás de mim. O dr. Fernando percebeu que eu precisava de ajuda, a Cris também. Apesar de estar com dilatação total há mais de três horas, a Catarina ainda estava alta e eu começava a ficar cansada. Às 8h30 o Pupin me perguntou se eu aceitava usar um pouquinho ocitocina sintética, nas palavras dele: “só um cheirinho” para ajudar a Catarina a descer.

Naquela hora eu devo ter feito a cara do gatinho do shrek, pois eu queria que fosse tudo espontâneo. Mas a minha confiança nele foi muito maior do que as minhas idealizações e eu respondi que sim, pois eu sabia que ele estava tentando conduzir da melhor forma. Aquele “cheirinho” foi suficiente para transformar as pequenas contrações de dez segundos em dores fortes com cerca um minuto. Senti ela descendo e sua cabeça querendo sair de dentro de mim. Fomos para a cama e eu fiz toda a força do mundo, mais força do que eu sabia que tinha. Eu pensava na Catarina, eu pensava na Sara, eu pensava na perfeição do corpo humano. Lembro de gritar alto, mas o vídeo do parto mostra apenas umas reclamações e uns gritos abafados.

Mas dentro de mim o som era ensurdecedor, eu estava quebrando tantas barreiras, me superando de novo, abrindo portais e curando tantas dores, inclusive a dor de um aborto… Uma transformação acontecia ali e eu sabia que as nossas vidas nunca mais seriam as mesmas – a Sara ganharia uma irmã para sempre. Às 8h56 o dr. Fernando entregou a Catarina em meus braços. Eu só conseguia agradecer a Deus e olhar para aquele rostinho lindo. O Willian me beijou, beijou a Catarina e ficamos nos olhando, nos cheirando.

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Ela estava roxinha e chorando intensamente. Parece que estava tudo em câmera lenta até que o dr. Fernando começou a fazer os procedimentos para cortar o cordão que ainda pulsava. Foi então que eu observei a pediatra do lado da cama olhando preocupada para a minha princesa. O Willian cortou aquele cordão que me ligou a ela durante quase nove meses e logo a Catarina foi retirada dos meus braços e colocada no oxigênio, ali mesmo na sala de parto.

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O Pupin e a Cris nos acalmaram e falaram que era comum algumas crianças nascerem com um desconforto respiratório, mas que logo ela ficaria bem. Enquanto eu olhava para a Catarina recebendo os primeiros cuidados o Pupin me examinava. Eu me sentia muito bem fisicamente, sem dor, sem precisar levar pontos, apenas preocupada.

Logo depois a Sara entrou na sala de parto e aquele momento que eu tanto esperei estava se concretizando ali, minhas duas filhas se olhavam e se tocavam pela primeira vez. Que emoção!

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Minha mãe, irmã, os avós paternos e o padrinho também entraram e ficamos todos ali, admirando aquele milagre da natureza, a nossa menina cabeluda, de 51,5cm e 3,780kg. Ela já não estava mais roxa, mas ainda apresentava respiração irregular. Ali mesmo na sala de parto eu tomei café da manhã, fui para o banho, veio o meu almoço e nada de pegar a Catarina no colo; ela continuava usando o capacete de oxigênio.

Já era quase 13h quando a pediatra conversou comigo e disse que precisava levar a Catarina para UTI pra fazer alguns exames. Parece que o chão abriu. Eu pedi para segurá-la pelo menos um pouquinho antes de colocá-la no colo da enfermeira. Mais do que a minha filhinha, eu entregava para aquela pessoa que eu nunca tinha visto antes um pedaço do meu coração. Quando as duas saíram da sala de parto eu chorei demais, eu não estava preparada para viver aquilo.

Durante nove meses me preparei para várias intercorrência; para uma cesariana se fosse preciso, para ter que ir para outra maternidade, para ser atendida por outros profissionais, mas não estava preparada para que a Catarina não ficasse comigo.

No dia seguinte os exames apontaram um princípio de infecção e recebemos a notícia de que ela teria que ficar internada para tomar medicação. Como os horários na UTI eram restritos, eu ficava a maioria do tempo no quarto. Eu sabia que ela estava sendo bem cuidada, mas eu sentia uma saudade tão grande dela, que meu coração estava estraçalhado. Cada minuto que a gente ficava na UTI ao lado dela era valioso.

No dia 29 eu ganhei alta e tivemos que ir para casa deixando lá na maternidade uma parte de nós. Sem dúvida aqueles dias foram um convite à superação. O que nos fortalecia era a melhora constante no quadro dela. Ainda no dia 29 comecei a amamenta-la e a segurá-la no colo com frequência. Depois da minha alta passávamos os dias na maternidade e à noite íamos para casa para estar com a Sara, que revigorava as nossas forças. Em todos os momentos eu me senti amparada por Deus e pelo meu próprio espírito e conheci uma força que eu não sabia que tinha.

E uma semana depois do seu nascimento, no dia 4 de dezembro, finalmente levamos a nossa menina para casa. Esse dia será para sempre inesquecível. Até hoje não temos a resposta sobre o que ocasionou aquele princípio de infecção, já que o pré-natal estava normal, mas sabemos que foi um privilégio estarmos cercados por profissionais competentes que diagnosticaram e trataram precocemente a nossa pequena valente.

Os dias seguintes continuaram sendo de muitas lutas, pois eu tive muitos problemas para amamentar: fissuras, mastite, galactocele e até uma suspeita de tumor na mama. Mas a cada dor que eu sentia, me recordava daqueles dias difíceis na UTI e pensava que nenhuma dor poderia ser mais forte do que aquela. E apesar de amamentar por mais de um mês sentindo muita dor, ela estava conosco e isso me fortalecia e não me deixava desistir.

Hoje, dois meses depois, a amamentação ainda não está 100%, mas continuamos persistindo. Apesar de tudo a nossa vida nunca foi tão feliz e completa. Sinto muita gratidão ao universo por cada detalhe, cada vivência e cada dificuldade, pois ela só fortaleceu os nossos laços.

Gratidão aos profissionais do Ilha, em especial à equipe da UTI que cuidou com tanto amor da nossa menina.

Gratidão eterna ao dr. Fernando que mais uma vez cumpriu com profissionalismo e delicadeza o seu papel, ouvindo minhas vontades desde o pré-natal e me deixando protagonizar o parto.

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Agradeço também à Cris por ter aceitado mais uma vez o nosso convite e por todo o seu apoio, abraços, beijinhos, abanos e por toda a força que deu a mim e ao papai. Cris, você foi fundamental!

Gratidão aos nossos pais, familiares e amigos que acompanharam de perto e por todo apoio, amor e preocupação. Carinho especial à minha mãe que praticamente mudou-se para a nossa casa para ajudar nos cuidados das meninas, mas, a cima de tudo, para cuidar de mim num momento em que todas as atenções estavam voltadas à Catarina.

No relato do parto da Sara eu encerrei escrevendo que eu tive o parto dos sonhos e que é possível parir sem trauma e sem sofrimento, apesar da dor.

Então vou me parafrasear e escrever de novo que não há dinheiro no mundo que pague um parto com respeito como o que eu tive.

Por isso, as gestantes que lerem esse relato, se tiverem a oportunidade, façam o parto com os profissionais da sua confiança e que respeitem suas vontades, pois o nascimento de um filho deve ser recordado apenas com alegria. E mais uma vez, seja bem-vinda, Catarina. Eu te amo!

Patrícia Schneider de Amorim


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