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 RELATO DE PARTO

…Meu corpo não faz mais parte de mim, eu sou só minha cabeça e minhas idéias. A dor não faz parte de mim…

Esse foi o “mantra” que repeti, insistentemente, durante o trabalho de parto. De alguma forma, creio que me ajudou…

Sei que o momento mais esperado de todo relato de parto, é o parto. Então, sem rodeios: Pari de 37 semanas e 2 dias, na água, naturalmente. Entre 2cm de dilatação e o nascimento do meu filho foram 3 horas. Intensas. Mas até chegar os 2 cm foram muitos pródromos. Muuuitos mesmo!! E agora?! Como saber quando são pródromos e quando é o trabalho de parto?!

UMA BREVE HISTÓRIA ANTES DO PARTO

A gestação e o nascimento do nosso filho nos ensinou três coisas: que não devemos exagerar no planejamento, porque provavelmente algumas (muitas) coisas não sairão como esperado; que a familia é tudo, mas nem sempre concordarão e apoiarão as nossas escolhas; e que o parto foi um marco na nossa vida e depois dele não somos mais os mesmos, renascemos.

O assunto parto surgiu no comecinho da minha primeira gestação, junto com sentimentos de medo e angustia. E crescia a cada consulta com a obstetra que me acompanhava. Conheci o blog da Cris e toda essa paixão sobre o parto humanizado tomou conta de mim. Mas o medo sempre esteve ali presente.

Entrei em contato com a Cris, e fui pensando no assunto, inclusive em trocar de obstetra. Ela nunca queria falar sobre parto, porque era muito cedo (cedo pra quem?). Infelizmente eu perdi meu bebe com 8 semanas. Foi um sofrimento muito grande para nós, pois já era muito amado e esperado. Estávamos casados a 11 anos, e finalmente tínhamos decidido ter filhos, não nos passava pela cabeça perde-lo.

Nossa próxima gestação, por opção, ocorreu exatamente 1 ano depois. Neste meio tempo, enquanto terminava uma habilitação na faculdade, continuei a ler e estudar mais sobre o parto humanizado. E assim que descobri a gravidez fui logo falar com a Cris e contar que eu estava de volta e preparada (eu achava).

Ainda não tinha tido coragem de mudar de obstetra. Até hoje me pergunto porque demorei, já que toda consulta eu saía angustiada, cheia de duvidas e culpa por não ter coragem. Acho que sempre tive medo de mudança, e uma das coisas que também aprendi na gestação é que mudar é bom! É libertador!

A Cris me indicou uns obstetras e fui atrás. Mas nem cheguei a ir em todos, a primeira já fez meu coração acalmar, a Dra. Roxana.

A gestação correu tudo bem, apenas uma suspeita de descolamento de placenta (que tirou o meu sono ate completar 3 meses). Depois disso passei a gestação bem ativa, dirigindo, concluindo o último semestre da faculdade, com direito a estágio, tcc e tudo mais. Era um sonho se realizando. Abrindo um parênteses aqui, quando entrei na faculdade falei pro meu marido que meu sonho era me formar gravida, BEM barriguda. Minha formatura ficou marcada para quando eu estivesse de 38 semanas. Vibrei de emoção. Mas como a vida é uma caixinha de surpresas, o meu filho nasceu de 37 semanas e eu fui na formatura após 7 dias. Com meu filho nos braços do pai, e nós chorando de emoção. Um sonho maior que esse não existe e somente o parto normal permitiu isso.

OS PRÓDROMOS E O PARTO

As contrações de braxton-hicks começaram cedo, lá pelo 5° mês, isso me deixava um pouco insegura as vezes. Eram todos os dias, principalmente quando ficava mais ansiosa, e a noite. Com o tempo elas foram aumentando a frequencia, mas nada fora do normal. Não tinha dor, apenas ficava dura, mas as vezes até sentia algumas fisgadas e desconforto. Então, quando eu estava com medo, buscava ajuda com a Cris e me acalmava. A Dra. Rox também me tranquilizava dizendo que era o corpo preparando o parto.

E assim foi, barriga dura daqui, dali, vaaaarias vezes ao dia.

Uma semana antes da minha formatura, estava de 37 semanas, eu e meu marido marcamos um final de semana de passeios e distrações (hotel com agua termal, teatro, cinema, pizza..)… 3 dias depois, nosso filho nasceu!!!

Cinco dias antes do parto, eu ja senti mais a lombar (Fiz pilates desde o terceiro mes, até o final da gestação, e talvez isso fez com que eu não tivesse dor lombar. Que é comum no final da gestação). Sentia um peso maior, comecei a ficar mais inquieta, irritadiça, e comecei a caminhar, caminhei muitoooo, que delicia, andava igual uma pata, mas andava. Volta e meia vinha fisgadas, a barriga cada vez mais dura. Mas ainda pareciam os pródromos de antes. Era minha hora chegando e eu achava que ainda iria ficar assim 1 mês!

Dois dias antes do nascimento, nas contrações (barriga dura) começou a doer as costas. Mas uma coisa que eu lembro bem é que eu estava querendo me isolar, qualquer distração me perturbava. Meu marido foi muito parceiro nesse momento, pq ele deu o espaço que eu precisava, mas sem deixar de me auxiliar. Tudo bem, eu estava irritada ao ponto de até isso me irritar. Mas hoje o que marca mais é a ajuda dele, o carinho, ele sabia o quanto eu tinha me preparado pra isso.

Um dia antes do nascimento as contrações aumentaram, principalmente a noite, eu ja sentia bastante a coluna, acordava a noite com dor, mas aquilo tudo parecia tudo normal, nem imaginava que ele poderia estar dando os primeiro sinais. Mas depois de uma dor mais forte fui ao banheiro e saiu um pouco de tampão. Mandei foto pra Cris e confirmamos. Mas era pouco. Isso poderia ficar nisso e nascer bem depois. Eu desejava isso. Pois queria me formar barriguda ainda!!!! Queria que tudo parasse.

Graças a Deus, Ele sabe o que faz.

A HORA “P”

No dia do nascimento, acordei as 4h da manhã com cólicas mais fortes, a cada 4- 5minutos, mas eu estava crente que aquilo podia simplesmente parar e meu bebe nascer de 42 semanas. Fui tomar um banho quente longo. E dai começaram a doer mais. Quando me sequei do banho. Saiu um mega tampão. Nisso meu marido acordou (eu acordei ele heheh) e começou a me ajudar a contar as contrações (eu ainda achava que eram apenas prodromos, mas tava curiosa em saber o ritmo e contar pra cris). Já estava em contato com a Cris, que pra mim foi um porto seguro, as dores ate pareciam diminuir quando eu falava com ela. Ela me perguntou quanto era a dor numa escala de 1 ate 10. E como foi difícil escolher!!! Na hora doía, queria dizer 20 mas eu não queria dar um número alto porque sabia que aquilo podia aumentar muito, mas nem tão pouco, porque era uma dor considerável. Como uma cólica menstrual forte, com uma dor de barriga aguda. Fiquei no banho, na bola de pilates. Mas tudo ainda parecia estranho. É isso mesmo? Ta na hora? Vai parar né? (Eu com meus pensamentos)

De manhã fui na Dra. Rox e ela viu que eu estava com um pouquinho só de dilatação. Acho que era tão pouco que ela não quis nem dizer o quanto. E eu não quis perguntar, fiquei com medo, desanimada. Como aquilo podia já doer tanto e só isso de dilatação!!!!

Fomos eu e meu marido almoçar no shopping, demos umas voltas por lá (e eu com contração a cada 3-4 min. Mas as vezes espaçavam para 7-10 min). Nesse ponto eu já fazia cara feia na dor! E novamente, eu achava ainda que tudo ia parar e eu ia até 42 semanas (ta ficando chato isso; mas eu só me convenci que era a hora quando estava dentro da banheira berrando e com 8cm).

Voltando…. Quando cheguei em casa, perto das 15h as dores começaram a moer, a cada 3min. Interessante que não são 3 minutos exatos, isso depende de quando vc começa a contar e quando termina. Na hora me bateu muita duvida disso!!!

Falei com a Cris e ela nos aconselhou irmos pra maternidade (no Ilha) porque a fila do continente para ilha iria começar. Ajeitamos as ultimas coisas e passamos pra buscar a Cris.

Ahhhh a Cris. Quando vi ela com aquele uniforme lindo, veio um gelo na minha espinha. Então era a hora mesmo? Será? Será meeeeesmo? Foi a visão mais reconfortante, prazerosa, que eu saboreei de longe! Pena que quando ela entrou no carro veio uma contração e eu mal pude dar oi. (Oi Cris! Te amo! Kkkkkk) essa era minha vontade. Pronto falei.

Nesse momento eu ja espremia com toda minha força a alça do teto do carro quando vinha a contração, respirava fuuuuuundo e não queria papo com ninguém.

Chegamos na maternidade umas 17:30. Logo que sai do carro veio uma contração que me jogou de joelhos com o tronco pra frente. Eu não controlava, era a posição que aliviava, não sei explicar, o corpo simplesmente ia. E dai veio a mão SANTA da Cris. Como a massagem dela fazia aquilo tudo ficar mais suportável!!! Eu só pensava, “Cris não saia mais do meu lado, fica aqui grudadinha de mim”. Eu não falei, mas ela ficou. A cada contração eu ajoelhava e ela descia junto e massageava. Ahhhhh delícia!

Fomos atendidos e pra minha decepção o obstetra de plantão viu apenas 2 cm de dilatação. Ahhhh não acreditava. Como assim se já estava doendo muito. Eu era mesmo uma fracote pra dor?

Como neste dia tinhamos feito uma cardiotocografia, e que apenas melhorou após a refeição, já fiquei por la. E em pouco tempo já estava na sala de parto. Ahhhhh a sala de parto!! A banheira, a bola de pilates, o banquinho, tudo ali! Que sonho realizado!

Após esse breve momento de deslumbre, começou tudo de novo, ajoelha, sobe, ajoelha…. Checa batimentos, ajoelha…. Chuveiro, ajoelha, sai do chuveiro (não gostei), bola (nem pensar)… Meu negócio era ficar de joelhos mesmo.

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E em um momento senti uma mão tímida, era meu marido, sendo ensinado pela Cris, pra participar desse momento lindo que ele se orgulha de dizer, que fez massagem, e me ajudou a parir. Meu doulo! Que orgulho desse pai!
Mas havia momentos que eu desejava a mão experiente da Cris, e ela vinha sem eu pedir.  Mas com o tempo e revezamento, meu marido foi ficando “expert” e eu ja não sabia mais quem era quem.

Bom, e os berros vieram, o momento da loucura, a gente fica doida da dor mesmo minha gente!!! Mas depois que passa, é a sensação mais maravilhosa do mundo!

E então, a dor é aquela coisa, ninguém pode explicar, porque ela é subjetiva. Há porções emocionais envolvidas com os mecanismos da dor; único de cada ser humano, de cada animal, cada um com suas peculiaridades. O que posso dizer é que dói. Dói muito. Mas pra mim não foi como se tivessem me rachando no meio como ja li em relatos e que me apavorou, mas também não é apenas cólica forte. É uma dor diferente, porque a dor de parto é única! É uma dor de abertura, como que estivessem te apertando forte, que você fica quase sem ar. Mas estamos no estado emocional tão alterado que é tudo diferente.

Fui pra água e por lá fiquei. Reclamando da água quente, mas aliviava. A cada contração pensava na analgesia. Eu, farmacêutica, sei dos riscos, mas aquele momento só pensava nos benefícios. Peço? Não peço! E por aí foi até chegar no período de transição (o momento que enlouquecemos). Mas eu, recém estava com 4cm, como assim? Aquela dor toda! E ficar mais quantas horas assim! Analgesia agoraaaa (kkkkkk). Mas com toda paciência, a Cris e a Dra. Rox me incentivaram a continuar…. e adivinhem, 8 cm!!!!

Ahhh a loucura da dor ta explicada! Daqui não piora mais que isso. E não piorou mesmo. Ja era o limite. E não pedi mais analgesia. E nem pensava mais nela. Eu sabia que logo meu bebe estaria ali.

No expulsivo a contração fica diferente, ainda dói, mas é uma dor diferente. E foi tão rápido que a Dra. Rox pedia pra eu não fazer muita força, pra tentar respirar e soltar o berro. Tentei.. Mas… Logo nasceu.

NASCEUU!!! Meu bebê, meu bebê! Lembro de repetir diversas vezes. E quando dei por mim, meu marido estava junto na água, ele que contraía meu quadril a cada dor e me ajudava a fazer nascer nosso filho. Que emoção, quanto amor, quanta gratidão. Não haviam duvidas que ele era saudável, assim que pus minhas mãos nele eu já senti. Quentinho, cheiroso, resmungando, rosadinho. O cordão pulsava, a banheira ficava cada vez mais vermelha, mas eu queria ficar ali eternamente. Lembro de virar pra Cris que estava na beira da banheira e dizer “obrigada”. Eu queria dizer tanta coisa, mas com o olhar eu sei que ela entendeu.

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O PARTO SÓ ACABA DEPOIS QUE “NASCE” A PLACENTA, diz a Dra. Roxana

Pois bem. O cordão parou de pulsar, meu marido cortou, Ian estava pronto pra pediatra avaliar o segundo apgar (10) enquanto eu saía da banheira. Na cama a placenta “nasceu”. Outra sensação boa! Aaaaaahhhhh agora está completo! Ian logo veio, e mamou, tão forte e com taaaanta vontade!

De laceração foi bem pouco. Apesar de ter perdido bastante sangue, foram 3 pontinhos superficiais. Só da mucosa. E comi, e tomei banho, e fomos para o quarto. Cris cuidadosamente tampou as luzes, ficou mais um pouco, e nos despedimos.

Silenciosamente eu e meu marido ali, amando o momento, amando olhar nosso bebe, tentando registrar tudo, olhar cada detalhe para termos essa imagem gravada nas nossas lembranças para a vida toda!

Meu Eu antigo ficou por lá, desceu pelo ralo da banheira, foi junto com a placenta. Meu Eu novo está aqui, renovada, renascida

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