(Esse bebê já nasceu a algum tempo, esse relato foi feito com permissão da mulher, que leu e permitiu sua publicação no meu site. O nosso objetivo é mostrar a realidade dos partos no Brasil e a importância de fazer escolhas conscientes. Obrigada!)

C. me achou bem no início da gestação, conversamos e fechamos o acompanhamento. Algum tempo depois por motivos pessoais ela voltou atrás e disse que não poderia ter o meu acompanhamento, apesar de querer. E no final da gestação mudou de idéia novamente.

Ela também não chamaria mais o obstetra e pretendia parir com plantonista da maternidade, expliquei que alguns profissionais não seguiriam o que ela queria, como nós achamos que o parto deve ser, que ela deveria cogitar chama-lo. O dia do trabalho de parto chegou e segui para sua casa na madrugada, ficamos lá até o dia amanhecer, então eles decidiram que era melhor ir para evitar o trânsito da ponte. Como eu havia ligado para a maternidade, sabia que o plantonista não era o que ela desejava, perguntei novamente se não queria chamar seu médico, e ela disse não.

Chegamos e ela estava com 6 cm de dilatação, o tempo foi passando, trocou o plantão e ela decidiu que queria analgesia. Fomos para o centro cirúrgico, e o médico após analgesia, pediu que ela fizesse força para “aumentar” a dilatação. Algumas forças depois ele disse que estava com 8 cm. Pedi então para que fôssemos para sala de parto, onde o pai do bebê aguardava, afinal, não era hora de ficar fazendo força.

Descemos e pouco tempo ele voltou, examinou e estava “ainda” com 8 cm, colocou ela no banco de cócoras e a instruiu a ficar fazendo força, fora e durante a contração, para que dilatasse logo. Ela me perguntou o que eu achava, e falei que não achava que era hora de empurrar, não tinha dilatação suficiente, ela ficaria mais exausta ainda, sem contar com as complicações que isso poderia trazer para o parto.
Ela resolveu que não queria empurrar, estava cansada e aquilo não parecia certo.

Pouco antes de acabar o plantão, ele veio e mandou que ela fizesse força novamente, e ela chegou a dilatação total ( 10 cm), o bebê havia descido bastante, até que estava no canal vaginal, dando inclusive de ver os cabelos quando ela fazia força. Demoraria mais um pouco, o quanto era impossível prever… mas ele indicou a cesárea, faltando uma hora para o fim do plantão, disse que o bebê não nasceria por baixo.
A família apoiou a decisão do médico, eles achavam que ela já tinha “sofrido” demais, e que uma cesárea era o correto. (Por isso é tão importante ter no parto o mínimo de pessoas possível, e pessoas que apoiem a decisão do parto natural).

C. por outro lado, não queria aquilo, ela não queria uma cesárea. Ele disse que deixaria que ela fizesse força até ele voltar, se não estivesse coroando iria para a sala de cirurgia……Ela fez várias posições diferentes, rebolando entre as contrações, e fazendo força durante… mas nós sabíamos que I. demoraria mais um pouco, estava tudo ótimo, mas ela precisava de mais tempo… tempo que não foi respeitado pelo médico…Logo já veio a enfermeira avisar que a sala de cirurgia estava pronta, C. me perguntou o que eu achava daquela indicação, eu disse que não concordava, que estava tudo bem com ela e o bebê, e perguntei o que ela achava. Foi quando me disse:” – Cris, estou muito cansada, não quero mais.”

Fomos para o Centro cirúrgico, entrei e fiquei ao seu lado desde a anestesia. Quando tudo começou o pai do bebê pode entrar, pedi para o obstetra a permissão para que eu abaixasse o campo cirúrgico, para que ela visse filha nascendo, era afinal o mínimo que ele poderia fazer….
Ele me olhou contrariado e soltou um: “- Claro!”
Mas quando ele foi tentar tirar a bebê, não foi fácil , o anestesista puxava a barriga para cima, tentando puxar I. enquanto o obstetra tentava tirar a cabeça do canal vaginal…. É, me pareceu que ela não queria era sair por cima….

Finalmente ele conseguiu, com ajuda do médico auxiliar e do anestesista, quando permitiram tirar o campo já era tarde… a pediatra já pegava o bebê e levava para os cuidados…No final da cirurgia deixaram que ela ficasse com o bebê, e foram para a recuperação. Coloquei ela para mamar, ela cheirou, lambeu, mas não quis. Por causa do efeito da anestesia, C. estava com muito sono, e não conseguia ficar com a filha, então o bebê ficou no colo do pai, ao seu lado… Me despedi e fui para casa. O médico quis me explicar que o parto normal não daria certo porque o bebê estava com a cabeça meio de lado… mas espera, já acompanhei vários nessa situação. Disse que estava com o rosto pra cima, mas enquanto ele a tirava, eu vi que seu corpo estava virado para baixo…. Ela chegou pesando  3.295 kg e 49.5 cm.

Espero que esse relato mostre as mulheres a importância de ter um obstetra a favor do parto natural no parto, o corpo das mulheres não tem defeito, elas nasceram prontas para parir, mas se não tiverem um obstetra que entenda isso, tudo será em vão.
E para aquelas mulheres que dizem que o problema é que não podem pagar pelo médico, porque o dinheiro está indo para o enxoval e para o quarto do bebê, pensem que o mais importante pra ele é o nascimento, e é um momento único que vocês não podem voltar no tempo e refazê-lo.
Hoje visitei a C. que afirmou que agora olhando, teria valido muito a pena chamar o médico do pré-natal. Esse relato serve para conscientizar as mulheres de que nem todos os médicos, entendem como o parto natural acontece, e nem o respeitam.

Cristina Melo
Téc Enfermagem
& Doula!


2 comentários

Carol · 12 de março de 2012 às 10:18

Nossa Cris, que triste….me arrepiei coma atitude desse médico….parece brincadeira que isso acontece…como é importante estar cercada de pessoas q realmente te apoiem!!

Arlene · 14 de junho de 2012 às 9:02

Uma violência tão horripilante e tão comum, que se tornou até banal para os médicos… isso é muito triste, dói ler isso 🙁

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