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AMOR INCONDICIONAL

Já que passados 6 meses sem que a Sol tenha escrito o diário de parto da Ana, eu resolvi ajudá-la. Na verdade, eu resolvi fazer isso como uma surpresa, já que, justiça seja feita, ela não tem muito tempo ultimamente. Antes de falar do trabalho de parto propriamente dito, não dá pra deixar de relatar como foi toda a gravidez e como curtimos cada momento juntos, nós três. Eu e a Sol sempre falamos em ter um filho, brincávamos eventualmente com o seu nome, já que o nome que eu sempre pensava, não foi aceito por ela e o pior, queria um “Toinho” igual ao pai. No começo fui intransigente, não ia dar o mesmo nome de velho que me deram quando eu ainda era um bebê. Mas ela venceu pela insistência, insistência mesmo. Era Toinho pra lá, Toinho pra cá, que logo assimilei o Juninho (hahahaha), como se eu mesmo tivesse escolhido. Aliás, essa é uma qualidade exclusivamente feminina, incutir na sua mente uma coisa, que você, homem, muito esperto, acha que foi você mesmo que pensou. Aí já era. Enfim, o pensamento de um bebê sempre passou pelas nossas mentes.

O engraçado é que sempre imaginávamos um menino, por vontade minha, confesso, e por aceitação dela. Era dezembro de 2015, passamos o final de ano juntos, o início de 2016, muita festa, muito excesso, comida e bebida. Depois disso, por conta do nosso trabalho (servidores em Estados diferentes), só voltaríamos a nos vermos no carnaval, quando a Sol iria ao Rio. Nas conversas diárias ao telefone, brincadeira vai, brincadeira vem, o Toinho sempre permeava o papo. Chegou a data do carnaval, fui buscar a Sol no Aeroporto Santos Dumont e quando chegamos em casa, nos abraçamos fortemente e senti que a Sol estava esquisita, com o coração disparado, os olhos marejados e ofegante. Soube na hora que ela queria me contar algo, e por incrível que pareça já sabia o que era. Só perguntei “o que foi?”, nem deixei ela dizer,  “vou ser papai”, exclamei. Aí pronto, ela chorou, eu virei criança, e a partir daí nossa vida mudou completamente.

Ela descobriu o sexo, sem mim, por conta da distância. Mas não me contou, eu vi escrito “menina” no ultrassom, assim como ela. A emoção foi enorme. Nunca havia pensado numa menininha. Vestidos, bonecas, meiguices etc. Comecei a gostar muito da ideia. Afinal, as meninas são agarradíssimas com os pais, dizem. Escolhemos o nome: Ana. Em parte uma homenagem a minha vó, em parte porque gostamos do nome e decidimos que todos os nossos filhos terão nomes tradicionais e simples.

Decidimos pelo parto natural, mais livre e mais humano que o normal. A mulher fica livre, na posição que escolher, não tem intervenções desnecessárias, ou seja, como deveria ser mesmo. Assistimos documentários. O mais marcante foi o “Renascimento do Parto”, um tapa na cara da sociedade. Não sabemos respeitar a mulher, o bebê, o pai, o ser humano, no momento mais emocionante de suas vidas. Recomendo pra quem estiver em estado gravídico. Mostra que fomos obrigados a aceitar procedimentos desnecessários, inescrupulosos, até cruéis, que são feitos por uma demanda financeira e por comodidade, por médicos (não todos) que não sabem o que significa ética médica. A maternidade escolhida foi a “Maternidade Ilha”, pois atendia o propósito do parto natural. Pesquisamos sobre os médicos do Ilha e todos mostravam excelentes retrospectos nos fóruns de grávidas, quase todas de parto natural. Resolvemos arriscar em não fazer o chamado e ir no plantão.  Foi aí que encontramos o anjo da nossa vida. Cris Doula.

Nas pesquisas sobre o parto natural, conhecemos o trabalho da doula, o que faz e qual seu papel no parto. Não, ela não é médica obstétrica, mas é uma expert no assunto, quase  enfermeira. Procurando tal profissional, nos deparamos com o site da Cris. A Sol o leu de cabo a rabo. Entre idas e vindas do Rio, no final de agosto fui de vez para Florianópolis para acompanhar o nascimento da minha filha, já que a data provável do parto era 30/08, uma terça. Nas semanas finais a barriga da Sol estava enorme.

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Na madrugada de quinta, 25/08, as contrações de treinamento aumentaram e a Sol perdeu o tampão. Primeiro sinal da chegada de um bebê. Avisamos a Cris, que prontamente respondeu e nos mandou monitorar. Passou a noite sentindo desconforto, mas não dor. Ficamos felizes com isso, porque a hora de ver o rostinho da bichinha estava chegando. Durante o dia fizemos as lembrancinhas de maternidade. Chocolates e ursinhos. A dor veio de vez na noite de sexta pra sábado. Contrações fortes e doloridas. Cris pediu pra cronometrar e avisá-la. Comecei a cronometrar, estavam totalmente irregulares.  A mala da maternidade estava pronta há muito, mas era melhor esperar. Não dormimos. Cochilávamos entre uma contração e outra. Ou seja, cochilos de 7 min, 5, 8, 10, 7 de novo. Quando vinham a Sol gemia. Quando amanheceu, a minha mãe também chegou. Muita pressão de todo mundo para irmos logo pra maternidade.

Sabíamos que as contrações tinham que se regularizar e muitas vezes saber o momento certo de ir pra maternidade é crucial e determinante entre ter um parto normal ou cesárea. Cedemos e nos dirigimos pro Ilha. Era por volta de 12h de sábado. Foi o melhor que fizemos, pois a Sol estava com 4 cm de dilatação. O médico indicou a internação. Entregamos a ele um plano de parto, relatando os nossos desejos quanto ao procedimento. Cris nos havia fornecido. No meio de tanta dor e desconforto, a Sol ficou muito feliz, porque estava muito ansiosa para ter nos seus braços o amor da nossa vida. Esperamos pela internação um bom tempo, nisso as contrações iam e vinham. Quando entramos no quarto, que era privativo, a Sol botou o roupão e aí começou a brincadeira. Começou efetivamente o nascimento da Ana.  Com 7 cm seríamos transferidos para a sala de parto, onde dispunha-se de banheira e chuveiro. Lá, a mulher tem total liberdade de caminhar, lanchar e rebolar na bola. A Sol conversava normalmente, caminhava pelo quarto e quando vinham as contrações se apoiava em mim ou na cama. Dizia que a sensação era de empurrar a barriga pra baixo. Pra uma mãe de primeira viagem um processo longo e dolorido.

A Cris já estava a caminho neste momento. Em nenhum momento ficamos apreensivos, talvez porque no afã de ter um parto tranquilo, consumimos muita informação e estávamos por dentro do que estava acontecendo. Por volta das 16h, a Cris chegou no Ilha. Logo levou a Sol pra caminhar do lado de fora do quarto. A partir daí, a Sol rebolou na bola, se apoiou em mim e na Cris. Não demonstrava qualquer sinal de cansaço ou fraquejamento. Há cada hora uma enfermeira vinha auscultar o coração da Ana e aferir a pressão da Sol.

Estava tudo normal até ali. Por volta das 19h o médico mediu a dilatação, tinha chegado aos 7 cm. Muita felicidade. A evolução era rápida. Era chegada a hora de subirmos à sala de parto. A Sol foi caminhando. Ao que tudo indicava, com mais 3h atingiria os 10 cm e com mais um pouco de tempo, pronto, nasceria nossa pequena desejada. Esqueceram de nos dizer que no final do jogo a partida sempre é mais disputada e às vezes tem prorrogação. As contrações continuaram vindo com força e ritmo. Mais 1h, mais 1 cm, chegávamos a 8. A meta eram os 10. Sol revezou entre a banheira, o chuveiro, a bola, banheira de novo, chuveiro, bola e de quatro na maca. A Cris sempre motivando e dando força. Realmente uma pessoa abençoada e que foi imprescindível naquele dia. Às 20h, o médico que havia feito a internação se despediu e nos deixou à cargo do Dr. Hugo Alejandro, um médico jovem, paciente e que se mostraria uma pessoa humana e com uma disposição que todo médico obstétrico deveria ter.

O cara foi demais. Impressionava-me a força da Sol, em nenhum momento demonstrou qualquer dúvida de que aquilo era o que ela mais queria na vida. Não pediu anestesia, ocitocina, nada. Seu lema era “Vem Ana”. Foi isso que a Cris escreveu na janela da sala, que estava suada por conta da banheira e a sala com as luzes diminuídas, tudo muito confortável. Como a maternidade fica encima de um morro, tivemos uma linda vista da noite de Floripa de lá. Detalhe apenas. Por volta das 22h, quase duas horas após a última medição, Dr. Hugo constatou que tinha evoluído só 0,5 cm. Foi um banho de água fria para a Sol. Anti-clímax. Vi no seu rosto a frustração. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Não sabemos se foi a estafa de contrações desde sexta de madrugada ou a banheira morna ter relaxado o seu corpo. Depois disso, as contrações começaram a diminuir de intensidade. Ficaram mais espaçadas e começaram a me preocupar um pouco.

Não disse nada, eu tinha que motivá-la. Disse que iria conseguir e que não tínhamos pressa. A Cris continuou motivando. Todos os sinais vitais da Ana estavam ótimos. Coração parecia uma bateria de escola de samba. Já próximo da meia-noite, dr. Hugo sugeriu o uso da ocitocina, que iria fazer com que as contrações voltassem a ser ritmadas e empurrassem o bebê pra baixo. Depois de muito pensarmos e discutirmos com a Cris, ficamos convencidos de que era a melhor opção e de que pouparia um pouco a Sol, que já estava cansadíssima e no mundo da “partolândia” como disse a Cris (Partolândia: estado selvagem no qual as mulheres ficam loucas, fora de si, estrangulam os maridos e falam coisas estranhas. Olhos olham, mas não vêem kkkk).

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Então, foi introduzida a ocitocina através de um soro. Que loucura. Aí o bicho pegou de verdade. As contrações vieram muito forte e num espaço de tempo muito curto. A Sol passou a gritar muito, muito mesmo. A dor estava grande. Eu já estava exausto, imagina ela. Detalhe: a Sol não pediu anestesia em nenhum momento até o fim do parto. A Sol foi pra banheira. Contrações. Gritos. Gritos. Gritos, Foi pra maca. Contrações. Gritos. Gritos. Gritos. Ficou pendurada no meu pescoço. Contrações. Gritos. Gritos. Gritos. No da Cris. Contrações. Gritos. Gritos. Gritos. Eu estava um pouco aflito já, porque mais que estivesse ali e aquele momento também fosse meu, não podia tirar aquela dor dela. Nossas mães já estavam desesperadas. Abri a porta uma hora e as duas quase caíram pra dentro. Estavam de orelha na porta.

Deixei que vissem a Sol por um tempo e depois pedi que retornassem pro quarto. Ela não podia perder a concentração. Começou a achar que não ia conseguir, que não ia dar certo, falar que estava quase impossível. Não se tocou no assunto cesárea. Estava implícito. Isso quase 3h da manhã. Senti que ela estava quase apagando. Foi aí que Dr. Hugo mediu e nos disse que havia chegado aos 10 cm e que o bebê começaria a descer. Depois de quase 15h de internação. Sol parece que levou um choque. Aplicação de adrenalina. Voltou com toda energia. Era chegada a hora. Pouco tempo depois o seu corpo pediu e ela começou a fazer força. O famoso “empurra que tá vindo”. Parecia um animal. Na realidade, somos um. Tentou primeiro na banheira. Força. Força. Força. Depois de quatro. Força. Força. Força. E por último de cócoras. Força. Força. Força. Eu a segurava por trás. Ela quebrava os ossos da minha mão e Dr. Hugo e a Cris estavam à frente. Sol disse “não aguento mais, ela não quer nascer”. Foi quando Dr. Hugo disse “como não? Estou vendo a cabeça”.

Outro choque. Sol fez mais uma força e a nossa bebê, nossa guerreira, finalmente nasceu. Linda. Grandona. Nem sabia o que tinha acontecido, estava dormindo. Demorou alguns segundos pra perceber e começar a chorar, junto de nós que também chorávamos.

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Dr. Hugo e Cris também se emocionaram. Que batalha. Dr. Hugo chamou toda a família, que viram a Ana ainda ligada à Sol pelo cordão umbilical. Cordão que eu mesmo cortei, numa tesourada cirúrgica. Dois dias depois, tivemos alta e a Sol saiu caminhando pela porta da gente. Não teve nenhum problema decorrente e se se perguntar a ela se valeu a pena, a resposta é “muito”. Ela a partir daquele momento se sentiu mais capaz e mais mulher e eu passei a admirá-la como nunca antes. Disse que esqueceu a dor instantaneamente. É uma guerreira e hoje uma mãe sem igual. Dedicada e amorosa. Em suma, esse foi o relato do parto de mais de 24h da nossa filha, feito por um pai.

Seremos eternamente gratos à nossa família, à Cris, aos drs. Ricardo Maia e Hugo Alejandro.

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Ana Brandão Paulik é o nome dela. Nasceu com 48 cm e 3.060 kg no dia 28/08/2016 às 04h da madrugada. Nesta semana, dia 28/02/2017, completa seis meses. Os melhores seis meses da nossa vida. Ter um bebê é uma dádiva de Deus e uma redescoberta do ser humano que existe em nós. Não há egoismo envolvido. Tudo é pra ele e por ele. Um ser dependente que te chama de noite se acordou porque não consegue pegar no sono sozinho. Que mama olhando nos olhos da mãe e aperta a sua mão como um alicate. Um anjinho que te faz voltar a ser criança. Hoje a Ana rola, senta, faz graça, dá gargalhada, tem uma personalidade única, mistura da mãe e do pai, tem 65 cm (maior que a média) e tem dois dentinhos na parte de baixo. A coisa mais linda de se ver. Amor incondicional define o que sentimos por essa sapeca.

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