Quinta-feira dia 17/08/17 era um dia normal. Sai de casa cedo para dar aula e como diariamente faço, dei o beijo de bom dia na esposa e sai. Não sou muito de ficar no celular quando estou na clínica mas nesse dia estava com o celular na mão, ansioso talvez.

Quando a Tai mandou a primeira mensagem meu coração apertou. Surpresa? Medo? Não sei descrever. Mas sei que, talvez, pela primeira vez, ela parecia mais calma  do que eu! Então, pouco tempo depois, chegam as outras mensagens avisando das contrações intervaladas, mas, pela Graça Divina, ela ainda mais calma que eu.

Eis que tomamos a decisão. Ligue para o vô Jonas e peça para ele te trazer, te encontro na maternidade.

Cheguei praticamente junto com eles e já estávamos ansiosos pela avaliação do médico responsável. Ligamos para o Dr. Fernando Pupin, que desde a primeira consulta pré-natal nos passou a segurança que a Tai procurava. Enquanto ele não chegava fomos conversando, sendo acalmados e informados por aquela que foi a tranquilidade fundamental para o trabalho de parto adequado, nossa Doula Cris. Preciso fazer uma pausa e um parágrafo para ela.

Dom! Talvez essa seja a descrição mais adequada quando falamos na Cris, doula. Pessoa calma, alegre, experiente, informada, inteligente, estudiosa. Podemos sentir em cada frase que ela pronuncia e em cada gesto seu que a todo instante ela está sabendo exatamente o que deve dizer e onde deve estar. Quando sonhei com o nascimento do Cássio procurei mais informações sobre parto e ao ouvir falar em doula me chamou a atenção pelo fato de ser uma classe de profissional que até então desconhecia. Mas olha, quão fundamental eles são.

É o tipo de profissional que você acha desnecessário até contratar. A partir daí você passa a se perguntar: “Como as mulheres pariam sem uma doula por perto?” Aos que pensam que apoio físico-emocional é dispensável saibam que, talvez, o papel psicológico tenha uma grandeza inimaginável em todos as situações das nossas vidas, ainda mais num momento de estresse (do ponto de vista fisiológico) como um trabalho de parto. O conhecimento agregado pela Cris e a sintonia com que ela executa seu trabalho, seja com a gestante, seja com a equipe presente, é sensacional. Talvez ela seja a voz e a cabeça da gestante na sala de parto. Quando a mulher está tão concentrada e focada em trazer seu filho a vida, a Cris fica ali preocupada com a mulher e com o que ela possa querer ou sentir.

Voltamos a sala de avaliação, o médico plantonista fez a avaliação e realmente confirmou que Tai estava em trabalho de parto. Quase que no mesmo momento Dr. Fernando chega e faz a primeira medição 8 cm de dilatação (na verdade 9, depois nos confessou ele, buscando acalmar a Tai), partiu sala de parto!

Ao chegar na sala de parto lembro-me bem do por-do-sol daquela quinta-feira,  o céu alaranjado, típico dos dias ensolarados de inverno. Ali tive a certeza de que Deus estava conosco e que tudo sairia de acordo com a vontade dEle.

É fato que muito do que ocorreu na sala de parto diz mais respeito ao que a Tai sentia do que o que vivenciei pessoalmente. Quis ser o mais discreto e coadjuvante possível. Me resumi a fazer o que a Cris e o Dr Fernando solicitavam e tentava tirar algumas fotos, sem muito sucesso. Muito do meu trabalho foi segurar a Tai em algumas posições que ela solicitava e principalmente abanar. A sala não pode ser refrigerada por conta do bebe, então eu era ar-condicionado. Nos poucos momentos em que quis fraquejar, caí na real e vislumbrei minha mulher em trabalho de parto. Lembro-me de pensar: “A dor que sinto no braço segurando esse leque por horas não deve ser nem uma fisgadinha perto do que a Tai tá sentindo, vou aguentar nem que o braço caia.” E não caiu!

Sei que depois de algum tempo tentando mudar de posição Dr. Fernando propôs de estourarmos a bolsa para acelerar o processo. A Tai prontamente aceitou e ali pude ver minha lindinha se transformar. Sempre foi o sonho da Tai realizar o Parto natural, e mal sabe ela o quanto essa experiência a transformou. Vejo-a ainda como a minha esposa, minha namorada, mas não consigo descrever a mudança que foi nítida nela. Seu jeito de agir, de falar, sua fisionomia, seu toque. Tudo parece que se transformou. Se ainda havia dúvidas de que o dia tinha chegado, posso afirmar com todas as letras, naquele instante a Tai virou mulher, e que mulherão! A enxergava como alguém forte, mas frágil, aguerrida, mas delicada e depois daquele instante parece que entrou uma leoa nela. Como me orgulho dela!

Acho que nós, homens, que tivermos a oportunidade de participar de um momento como esse, devemos estar juntos. Vai mudar muita coisa na nossa forma de enxergar nossas esposas, companheiras, parceiras, vai mudar muita coisa na nossa forma de enxergar a fisiologia do corpo humano e principalmente vai mudar nossa forma de nos enxergamos. Vivemos um mundo onde tentamos combater nossa pseudo-soberania sobre o sexo frágil, mas frágeis somos nós. Vivemos num mundo onde somos desafiados a possuirmos papéis de destaque, mas no fundo sempre fomos coadjuvantes.

Dr. Fernando pediu para a Tai ficar na cama apoiada em uma barra para auxiliar, e ali foi onde o processo se encaminhou. Pude ver os primeiros cabelinhos do Cássio aparecerem. E quando fui ajudar a Tai a fazer força em uma das contrações foi que nossa vida mudou. Lembro-me bem do Dr Fernando falando: “Deu Filipe. Vem pegar teu filho!” Sai das costas da Tai e quando olhei ali estava sobre a cama nosso bebê. Que sensação maravilhosa, mas confesso que foi estranho, por assim dizer. É um misto de descoberta, com euforia, com alívio, com alegria, com vontade de chorar, com inexperiência, com não saber o que fazer.

Então ouvi uma voz, não me recordo se Dr Fernando ou Cris dizendo para eu segurá-lo. Peguei nosso filhinho, tão pequeno, tão frágil, tão apressado. Foi rápido, afinal, Cássio era prematuro de 35 semanas e necessitava de cuidados, mas foi intenso. Foram feitos os procedimentos necessários e Cassio acabou ficando 9 horas no oxigênio e 2 dias de UTI neo.

Esses dois dias foram bençãos de Deus. Tai teve um sangramento e acabou ficando fraca e naquela noite teve um desmaio no quarto. Esses dois dias de UTI neo foram os necessários para que a Tai recuperasse suas forças e pudesse se dedicar um pouco mais ao Cássio quando ele foi para o quarto. Esses dois dias foram fundamentais para o meu crescimento também. A UTI neo tem a rotina de, quando as mães estão amamentando, os pais aguardam do lado de fora. Fui algumas vezes para a sacada ao lado da UTI onde tive a oportunidade de conversar com outros pais de crianças na UTI e pude perceber como fomos abençoados com nosso Cássio ter saído rápido e bem dos cuidados intensivos.

Busco sempre participar com o que está ao meu alcance. Procuro fazer o que está na minha alçada e tenho me esforçado para ser o mais presente possível. Vejo a cada dia meu amor e admiração pelo Cássio aumentarem, e percebo que a cada momento tenho uma nova oportunidade de me fazer um pai melhor e ajudá-lo a se desenvolver melhor. Entendo agora quando pais adotivos explicam que não há diferença entre “filho da barriga e filho do coração”, afinal, para nós pais, todos os filhos são do coração. E é o tipo de sentimento que você só tem quando realmente vê o teu filho. O fato de não termos o vinculo físico com o bebê é fundamental para percebermos que o amor deve ser construído, cultivado e cativado a cada dia com nossos filhos.

Pra finalizar quero deixar meu agradecimento primeiramente a Deus, autor da vida e que nos abençoou ricamente com a vinda do Cássio, à minha esposa Tairine por sempre, sempre, sempre, me apoiar, amparar e se mostrar essa leoa, à querida Cris doula, que teve papel fundamental para o bom andamento da gestação e parto do Cássio, ao Dr. Fernando Pupin por ser profissional exemplar e trazer a segurança que tanto buscávamos, e por último ao meu filho Cássio, por me ensinar que o amor é cultivado a cada dia e me mostrar que cada nova manhã trará uma surpresa diferente.

Filipe Dos Santos Reis

 

 

 

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