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Relato do parto da Catarina

Relatar um parto pode parecer muita exposição, mas assim como eu precisei de alguns relatos para me encorajar sinto que agora chegou a minha vez de retribuir, encorajando alguma mãe para esse momento tão sublime.

A melhor maneira que encontrei para expor através de palavras um sentimento inexplicável é contando o quanto a Catarina representa na minha vida para demonstrar o porquê escolhi e defendi ao máximo a possibilidade dela vir ao mundo da melhor maneira possível.

Quando tinha uns 18 anos, lembro que numa capela, em oração, uma colega perguntou qual era o meu maior sonho, pois ela iria rezar por ele em frente a Jesus Eucarístico. Eu respondi que era ser Mãe e também disse que era um sonho tão grande que até tinha receio que um dia ele não pudesse se realizar.

Aos 20 anos recebi o diagnostico de Linfoma, um tipo de câncer no sangue, e essa notícia foi dada por um medico muito seco e nada humano que disse assim: – Você tem linfoma, precisamos começar quimioterapia na próxima semana, seus cabelos vão cair, você corre o risco de não poder engravidar mais..Você tem mais alguma duvida? Eu lembro que apenas dei um sorriso amarelo para ele e disse que não tinha mais dúvidas, mas a parte que ele disse que não poderia engravidar, totalmente desnecessária para quem quer salvar a própria vida, ficou guardada e latente no meu inconsciente. Tratei o câncer durante seis meses, por algumas vezes quase me perderam, mas com a Graça de Deus  fiquei curada e mais saudável do que nunca.

Aos 23 anos encontrei a pessoa com quem queria passar o resto da minha vida.  Com 3 meses de namoro marcamos o casamento e durante os preparativos da cerimonia recebemos a noticia que estávamos grávidos. No inicio nos assustamos, pois estávamos vivendo outro momento e não imaginávamos que já chegaria a hora de sermos pais, mas logo passou o susto e veio a grande alegria de um sonho estar se realizando.  Avisamos parentes e amigos com a maior alegria do mundo, troquei o modelo do vestido de noiva para caber a futura barriga, compramos e ganhamos roupinhas de bebê. No primeiro ultrassom, onde iriamos ver o embrião, a médica disse que não havia embrião e que infelizmente era uma gravidez anaembrionada e precisava fazer  curetagem. Ficamos sem chão. Nunca passou na nossa cabeça essa possibilidade,  mesmo a médica dizendo que na primeira gestação isso era muito comum.  Novamente o meu inconsciente ficou trabalhando aquela antiga dúvida de poder conseguir ser Mãe.

Após três meses da curetagem, em lua de mel, engravidamos novamente. Quando fizemos o teste olhávamos assustados  e felizes, porém eu muito mais assustada, com muito receio de perder novamente. Queria me alegrar e ao mesmo tempo controlar o meu emocional para qualquer rumo que aquela gestação tomaria. Quando vimos o embrião veio o alivio, contamos para parentes e amigos e aos poucos fui curtindo a gestação em todos os detalhes, desde os preparativos do quarto e enxoval até a busca de todos os detalhes do parto.

Foi quando mergulhei no mundo da ‘Humanização do parto’. Sendo sincera não gosto deste termo, porque para mim não deveria existir parto humanizado e não humanizado. Parto é parto e todos deveriam ser tratados com amor e respeito. Porém, na banalização que se encontra esse momento tão sublime da mulher, infelizmente precisamos diferenciar para que as pessoas entendam que alguns partos ditos ‘normais’ não são nada normais. Muitas mulheres sofrem violência obstétrica e acham que é isso é parto normal, e tudo por falta de informação. Gosto da definição que diz: “A assistência humanizada é uma assistência sustentada por três pilares: protagonismo da mulher, assistência pautada em evidências científicas e responsabilidades e decisões compartilhadas entre a mulher ou casal e o médico”.

Durante a gestação inteira li muito sobre o porquê o parto natural era tão mal visto por muitas mulheres para que eu mesma criasse a minha própria opinião sobre ele e para evitar que me arrependesse dessa escolha. Queria dizer SIM ao parto natural, abraçando com este SIM todas as dores e alegrias que ele me traria, por isso me informei muito. Ouvi criticas de pessoas desinformadas, e isso me alegrava, porque em cada argumento defendendo o parto natural me sentia mais empoderada do trabalho de parto que estava reservado para mim. Para aumentar a minha segurança decidi contratar a Cris Doula e com ela veio muitas novas informações que eu e meu marido nos abastecíamos para viver de verdade o Parto Natural.

No final da gestação mais uns sustos, com meu pai hospitalizado, noites dormindo chorando, imunidade caindo e algumas infecções urinárias.  Internei com risco de nascimento prematuro, mas logo me reestabeleci. Infelizmente o meu pai não. Perdi ele quando estava com 30 semanas. Naquele momento tirei forças do instinto materno para não me deixar abalar a ponto de prejudicar minha gestação. Chorei e ainda choro pela sua perda, porém nunca me desesperei.

Com 39 semanas e 2 dias a Catarina, nossa filha, deu seus primeiros sinais que viria ao mundo, com pódromos às 19h a cada 2 horas, depois 20 minutos, bem irregulares. Quando foi 23:30 as contrações ficaram insistentes e regulares a cada 10 minutos e então avisei a Doula que me orientou a marcar as contrações. Foi assim a madrugada inteira com a minha mãe ao lado. Primeiro a cada 10 minutos, depois 5 minutos…Queria ir para a maternidade, porém não havia sinal do tampão e fiquei com medo de não ter dilatação e me mandarem para casa. Aguentei o máximo que consegui em casa, porém o meu máximo foi muito tempo e muita dor suportada. No trânsito de Florianópolis, eu e meu marido levamos 40 minutos para chegar na maternidade. As contrações a cada 2 minutos e meu marido dirigindo no trânsito e fazendo massagem na lombar que parecia estar se rasgando (aliviava a dor uns 50% aquela massagem). Quando chegamos na maternidade nos encontramos com a Cris Doula e então só pude cumprimentar ela com algumas lagrimas bem pesadas que pareciam contar tudo o que estava acontecendo.  Com o exame de toque veio a grande noticia: “8 cm de dilatação e agora após o exame já podemos considerar 9 cm” (com 10 cm de dilatação os bebês nascem). Faltava muito pouco e o cansaço parecia que queria me fazer desistir. Recordo que perguntei para a Cris: Agora ela não pode nascer sozinha daqui pra frente? (rsrsrs). A Cris Doula me lembrou sobre a força que precisava fazer e o coroamento. Por três vezes eu disse que não iria conseguir porque para mim parecia demorar  muito e as minhas  forças estavam acabando, mas a equipe só me elogiava dizendo que estava evoluindo super bem. Quando fui na banheira senti o corpo flutuar e ganhava força para que durante os intervalos das contrações pudesse fazer a  minha parte para que a Catarina viesse ao mundo.  Aos poucos a dor foi se transformando em força, o cansaço em coragem.

Com as palavras do médico dizendo – “Acredita! Acredita! Não desiste!” – a Catarina nasceu 10:17 do dia 08 de março, dia internacional da Mulher,  num lindo parto natural na água. Ela nasceu e foi direto para os meus braços. Naquele momento não passou nada na minha cabeça, fiquei uns segundos com um branco no campo dos pensamentos, até chegar a hora de me reconhecer como uma Mãe com a filha tão sonhada nos braços. E eu disse a ela: Bem vinda Catarina, amor da Mãe! Nós conseguimos!

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Esperamos 10 minutos para o meu marido cortar o cordão, pois não parou de pulsar, mas não havia mais sangue da placenta para ser destinado via cordão. A laceração no períneo não precisou de pontos e em 5 dias cicatrizou. Não aspiraram a nossa filha, o banho dela foi apenas após 24h do nascimento e a colocaram na primeira hora de vida para mamar no meu peito, que foi essencial para a descida do colostro/leite.

Resumindo a longa historia deste sonho de anos: Relatei alguns sofrimentos durante esta trajetória não para fazer drama ou algo parecido, pelo contrario, a intenção foi para mostrar que as vitórias que alcançamos tem um sabor muito mais doce quando passamos por tribulações. Quando a dor não pode ser evitada é preciso encontrar um sentido para ela. O sentido que coloquei nas minhas dores foi que sempre na frente eu estava sendo preparada para algo muito bom. Como disse o médico: ACREDITE! ACREDITE! ! NÃO DESISTA!

Maíra Borges

Depoimento enviado pelo whattsup pela Maíra, postado com autorização dela.

Depoimento enviado pelo whattsup pela Maíra, postado com autorização dela.


1 comentário

Aline · 21 de março de 2016 às 19:05

Maíra, você não tem idéia do bem que acaba de me fazer com o seu relato! Me identifiquei muito com sua história! Eu tive Leucemia com 22 anos e também ouvi que poderia ter minha fertilidade comprometida… engravidei ano passado e tive um aborto espontâneo em outubro devido a uma gravidez anembrionada. Assim como com você, vieram todos aqueles pensamentos negativos em minha mente.. mas que eu tento sempre evitar.. Semana passada descobri que estou grávida novamente.. ainda não fui ao médico, mas já estou muito ansiosa e esperançosa para o primeiro ultrassom.. Creio que Deus é poderoso, e é um Deus de milagres! Assim como você hoje é mãe de uma princesa linda eu também serei em nome de Jesus! Parabens e Deus te abencoe

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