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Para um casal que está tentando engravidar, o resultado positivo do exame de farmácia é um momento único e não foi diferente para mim, Juliana, e para meu marido Flávio. Ficamos extasiados, felizes e assustados, afinal, agora uma pequena vida dependeria de nós, apenas de nós. Eu e ele não somos mais tão novos e tínhamos uma boa noção de onde estaríamos entrando, portanto, sabíamos que os próximos passos seriam importantíssimos para uma gestação plena e feliz. Assim, começamos a pesquisar sobre cada passo do processo, de forma que não nos surpreendêssemos com os percalços do longo caminho que teríamos pela frente.

Claro, um ponto importante dessa jornada, que me tirava o sono, era o tão esperado parto. Ouvimos depoimentos de amigas que optaram pela cesariana e de outras que preferiram o parto normal, relembramos com elas os momentos mais importantes de cada opção, bem como a recuperação de cada uma delas. Ao final de nossa pesquisa, não tínhamos mais dúvidas que tentaríamos o parto normal, na maternidade. Essa decisão, no Brasil atual, é carregada de preconceitos, então, optamos por nos cercar de profissionais que amparassem a nossa opção e que, caso não fosse possível levá-la a diante, o fariam com respeito e dignidade. Dessa forma, o primeiro profissional que procuramos foi o obstetra. Na verdade, encontramos nosso tão esperado amparo no ginecologista que já me acompanhava há anos, Dr. Diego Di Marco. Médico, Militar da Força Aérea Brasileira assim como nós, e entusiasta do Parto Normal, recebeu nossa opção de braços abertos e nos incentivou desde o início, explicando as benesses e as dificuldades que poderíamos encontrar.

Em um segundo momento, percebemos que a participação de mais uma pessoa poderia ser importante, a Doula, prática que foi muito recomendada pelas amigas que optaram pelo parto normal e ratificada pelo nosso obstetra. Apesar de certa crença no censo comum de que a presença de uma Doula pouco acrescenta conhecimento técnico ao momento do parto, ao nos informarmos com mais cautela, entendemos que, na verdade, este é um preconceito infundado e que o incentivo e a tutela de uma profissional assim seriam fundamentais para que o nosso plano do parto normal fosse levado a diante. Chegamos a Cris por indicação de duas amigas cujos partos foram acompanhados por ela e cada uma com experiência distinta, sobre intervenções médicas e familiares. Além disso, ao discutir com o Dr. Diego possíveis indicações de Doula, ele confirmou as boas recomendações: “A Cris? Ela é ótima, já trabalhei com ela e nos damos muito bem. Eu a recomendo totalmente”.

A essa altura da gestação, 16 semanas, tivemos nosso primeiro encontro com a Cris. Fomos muito bem recebidos em seu apartamento. Com seu sotaque manezinho, ela foi conquistando a nossa confiança e nos explicando qual é exatamente a participação da Doula durante o parto. Confesso que estávamos bem insipientes, pois, para nós, “parto humanizado” significava um parto a luz do luar, no alto de uma montanha e ao som de músicas tradicionais, ou seja, pura ignorância. Antes de conversar com a Cris, parecia não haver um meio termo, ou era assim, ou um ambiente cheio de intervenções, com data e hora marcada.

Aos poucos, a Cris foi nos deixando mais confiantes e suas explicações, nos deixando mais calmos. Até certo ponto, o papo estava bastante técnico, então, a Cris pediu que eu lesse algumas coisas na Internet, foi então que brinquei, dizendo que minha opção por me cercar de profissionais era para justamente para não ter que ler nada da Internet, pois, acho-a um campo vago demais e cheio de armadilhas. Ainda mais nos tempos de hoje, em que você anuncia a amigos e familiares que vai tentar parto normal e recebe como resposta da maioria deles – “Jura? Você é maluca! Para que? Boa sorte” – então, eu precisava de argumentos sólidos para repelir esse tipo de comportamento.

Assim, ela se prontificou a indicar material confiável, inclusive um de preparação dela mesma, sobre parto, intervenções, amamentação, papel do pai e puerpério. Finalizando nosso encontro, a Cris explicou que o parto humanizado não se trata de normal, natural ou cesariana, e sim de quando a vontade da mulher e do bebê (sim, eles também dão sinais de como querem nascer, verão mais adiante) é respeitada. E foi com este acolhimento, tendo nossas opções respeitadas, que escolhemos a Cris como Doula.

Ao longo da gestação da Adele, (sim, quando descobrimos o sexo, definimos o nome e antes que você se pergunte, não, não tem nada a ver com a cantora. Até porque, se fosse por isso, chamar-se-ia Ivete e não Adele!!!) foram mais duas consultas com a Cris e inúmeros contatos via Internet. Ela sempre foi receptiva, prestativa e, especialmente, paciente, porque mães de primeira viagem, por mais cercadas de excelentes profissionais, piram. E piram muito! Comigo, não foi diferente.

Como sentia dores pélvicas desde a 21ª. Semana, acreditava que a Adele viria um pouco antes das 40 semanas, contrariando a crença geral de que os primeiros filhos demoram um pouco mais. Porém, minha primeira intuição materna falhou! Eu havia cumprido religiosamente minhas obrigações, desligando-me do trabalho na 37ª. semana, fiz uma prova com quase 39 semanas e nada da Adele aparecer. O medo de ela vir antes foi tomado por um receio dela não querer vir até o final das 41 semanas, tempo que o Dr Diego disse que esperaria para decidirmos sobre uma possível intervenção (fosse ocitocina, fosse cesariana, ou outra que decidíssemos).

Já com as consultas semanais, na 39ª. semana, fizemos um exame de toque que também pouco indicava sinais de um trabalho de parto por vir (colo grosso, posterior, apagado). Assim, o obstetra solicitou que fizéssemos uma ultrassonografia para checar como estavam as coisas e até quando podíamos prosseguir com o parto normal, que foi feita com 39 semanas e 6 dias, dia 9 de setembro. Novamente, não havia qualquer sinal de trabalho de parto, inclusive, com o médico que realizou a imagem, praticamente garantindo que a Adele ainda esperaria mais uma semana!

Bom, com tamanha certeza de que ela ainda demoraria a nascer, decidimos nos despreocupar um pouco. Meus pais, que são do Rio de janeiro, já estavam na cidade e fomos desfrutar de um excelente café colonial em Santo Antônio de Lisboa, juntamente com mais alguns amigos. Era sábado, dia 10 de setembro, e merecíamos um descanso.

Ao retornarmos para casa, todos estavam bastante satisfeitos, afinal, a tarde estava muito agradável, e com isso, ficamos um pouco mais no café colonial, fato que acrescentou pães e bolos a mais na nossa conta. Eu falei ao Flávio que me sentia pesada e estranha e ele respondeu – “Olhe ao redor, todos estamos pesados e estranhos!” – rimos muito e eu achei que realmente não era nada demais.

Por via da dúvida, escrevi para a Cris. Falei que estava com fortes dores na lombar, mas a barriga ficava dura mais que um minuto. Ela então esclareceu que a contração não duraria mais que esse tempo e me acalmava, falando para prestar mais a atenção ao meu corpo, tentar distinguir entre a Adele se mexendo e a contração, para contar quando a barriga ficava dura e porque a dor poderia durar mais que a contração. O pouco que consegui cronometrar, ainda estavam duas contrações em dez minutos, não era hora ainda. Falei com o meu médico também, que pediu que eu sempre ficasse em contato com a Cris.

Porém, aquela sensação não passou, na verdade, foi gradualmente aumentado. Até que resolvi ir ao banheiro e – ploft – um grande coágulo de sangue que não era o tampão havia caído e continuei sangrando. Detalhe, esse era o único caso em que o Diego tinha me orientado claramente para ir imediatamente à maternidade, sangramento mais intenso.

Com as malas no carro, Flávio passando mal de tanto comer de um lado e eu iniciando as contrações do outro, saímos apressados pelo portão da Base Aérea, ao lado do Aeroporto Hercílio Luz, onde moramos, quando nos demos conta que havia um jogo da Avaí e o transito estava congestionado. Tudo estava parado entre o aeroporto e a entrada para a Ressacada. Percebendo a gravidade da situação, o Flávio, com minhas palavras de incentivo, colocou o carro na contramão (já que o trânsito neste sentido estava interrompido) e lá fomos nós até a entrada da Ressacada, quando fomos abordados pela Polícia Militar. Aliás, não poderia deixar de agradecer à PMSC, pois, assim que constataram que não se tratavam de dois espertinhos furando fila, rapidamente nos escoltaram até a expressa. Assim, chegamos à Maternidade Ilha por volta das 20:00.

O Dr. Diego chegou logo após e me examinou, estava com 04 cm de dilatação, e disse que apesar do sangramento, poderíamos continuar com o trabalho de parto normal já que a bebê estava bem. Ele disse que já era hora de internarmos e, nessa hora, eu aproveitei e avisei a Cris. Então, enquanto meu marido pegava as malas no carro, eu preenchia minha ficha na recepção. Neste meio tempo, a Cris logo chegou.

Fomos para o quarto, por volta das 21 horas. A Cris me acompanhou no chuveiro para eu me trocar, pois ainda estava com sangue, quando, de repente, “ploft” de novo – mas dessa vez, era a bolsa se rompendo! Chamamos novamente o Diego, que avaliou e já tínhamos 05 cm de dilatação. Então ele disse que era hora de ir para a sala de parto.

Já na sala, a Cris começou a preparar a banheira e o todo o ambiente, com uma luzinha mais fraca, enquanto eu ficava no chuveiro para aliviar as dores. Meu marido trouxe nossa caixa de som e escolheu algumas músicas para me distrair. Assim que a banheira ficou pronta, mergulhei literalmente!

Entre uma e outra contração, tentava conversar sobre filmes, séries e viagens (paixões em comum com a Cris), mas ao longo daquela hora as contrações ficaram pouquíssimo espaçadas e muito, mas muito intensas.

Dr. Diego, em um monitoramento de rotina, por volta das 22 horas, até brincou: “Já está assim? Desse jeito, Adele virá ainda no dia 10”. Eu chorava muito quando ele fez um novo exame de toque, isso porque estava morrendo de medo que o resultado fosse desproporcional às dores que sentia. Foi um alívio saber que já estávamos com 07 cm de dilatação.

A cada contração, ficava em quatro apoios ou agachada, buscando as mãos calmas do meu marido, enquanto a Cris massageava minha lombar. Como as contrações estavam bem próximas, a frequências desses movimentos estavam menos intervaladas que um treinamento funcional! Estava exausta, e triste, porque havia chegado no meu limite, achando que não teria forças para continuar.

Meu marido e a Cris acreditavam mais em mim do que eu mesma! A Cris sugeriu que trocássemos de posição, voltássemos ao chuveiro, enquanto meu marido me incentivava, perguntando se eu realmente queria analgesia. Depois de mais três contrações, não houve jeito: estava exausta e sentia que se não descansasse um pouco, não conseguiria meu parto normal.

O procedimento de analgesia demorou cerca de 45 minutos, entre ir ao centro cirúrgico e voltar ao quarto. Precisei de muita coragem para entrar sozinha no centro cirúrgico, já que nem a Cris e nem meu marido puderam entrar, e também não poderia voltar a banheira nem ao chuveiro, por conta do cateter, coisas que fiquei sabendo só na hora. Diego ficou um pouco, pois estava de plantão e não poderia se prolongar lá.

A analgesia diminuiu a dor, mas continuava sentindo bastante as contrações, o que era um sinal que o trabalho de parto continuava. Depois da meia noite, as dores voltaram com tudo, e meu médico fez mais um exame de toque e me disse: “e se eu te dissesse que você está com 10 cm de dilatação? Levante dessa maca e vamos começar a fazer força”.

Fomos para a bola suíça, gritei, fiquei de pé, chorei, gritei e até dancei…. Estava chegando a hora. A Cris e o Diego me incentivavam a sentir que Adele estava quase chegando, mas mais uma vez tinha medo que não fosse verdade…, porém, era!

Fomos para a banqueta, onde fiquei nos braços e nas pernas do meu marido, e depois de mais alguns empurrões, choros e gritos, tínhamos nossa Adele em nossos braços, às 1:33h do dia 11 de setembro.

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Engraçado que, durante todo o trabalho de parto, todos acreditaram demais em mim, mais que eu mesma. Tanto que, outro dia revendo o vídeo do parto, no momento que Adele nascia, eu falava para o meu médico parar de mexer, achando que era ele que estava fazendo um exame, não tinha fé que era minha filha nascendo.

E foi assim que os profissionais que nos cercamos, incluindo obviamente nossa Doula Cris, nos ensinaram o que é parto humanizado. É um parto possível, da maneira que nós escolhemos.

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Obs 1: Perto do expulsivo, uma enfermeira pediu que eu colocasse no meu set list Adele para chamar minha filha. Sim, Adele nasceu ao som de Adele!

Obs 2: Também não poderíamos deixar de citar alguns profissionais que não participaram diretamente do parto, mas que foram fundamentais para que tivéssemos sucesso, são eles: Amanda Kliemann (Fênix Psicologia), nossa psicóloga há anos e que apoiou incondicionalmente nossa decisão pelo parto normal; Letícia Klempous (Nutrição Clínica Funcional) nossa nutricionista; Daniele Maciel (Pilates e Fisioterapia Estética), que me ensinou alguns truques para fortificar o períneo e possibilitou que minha recuperação fosse ótima, além de ser esposa do Dr. Diego; e o pessoal da Fisio Esporte Pilates, onde fiz minha preparação física para este momento tão importante. Obrigada a todos!

Relato redigido a quatro mãos e três corações! Juliana, Flávio e Adele!


1 comentário

Lude · 24 de junho de 2018 às 17:22

Que relato completo e emocionante! Graças a Deus, tudo deu certo!

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