nascimento Oto3

Era só mais um dia de consulta normal. 39s e 5d. Na expectativa da vinda do pequeno grande Oto, mas com muita tranquilidade! Oto viria quando ele quisesse. Como Max demorou bastante, estávamos preparados para aguardar 42 semanas. Era uma quinta-feira normal de trabalho, pós feriadão de carnaval.

Dr. Rafael, sempre muito atencioso, começou a consulta pelo ultrassom. De um lado pro outro, mede aqui, mede lá, dá uma voltinha pra ver o pequeno. Mais uma vez. E mais uma vez – sem falar nada, quieto, estranho. Dani e eu percebemos algo, e a pergunta foi enfática: tudo certo, Dr. Rafael? Calmamente, ele começou a nos explicar: líquido amniótico havia diminuído muito e surgira uma circular na testa e outra no pescoço – indicativa de cesárea e para hoje!

Meu mundo de “vou parir na recepção dessa vez, pois já sou experiente nesse lance de parir” – foi por água abaixo. Desabei. Era a vida – essa fanfarrona – mostrando que nem sempre as coisas podem ser controladas e têm o percurso que nós desejamos. A natureza se encarregou de modificar os planos. Desabei e desaguei ali mesmo, no consultório. Olhava pro Dr. Rafael não acreditando naquilo. Perguntei sobre a possibilidade de indução e ele explicou sobre os riscos da indução do PN nesse caso. Era uma sensação de culpa (o que eu fiz de errado pra ter diminuído tanto o líquido de uma semana pra outra?), insegurança, incapacidade… Enfim, não conseguia ver nada positivo nessa história.

Dr. Rafael cuidou de toda parte burocrática: marcou para as 20h. Dava tempo de ir pra casa, arrumar tudo e voltar pra maternidade. Saí dali arrasada, em prantos. Nenhuma das palavras carinhosas do Dani foi capaz de segurar minha tristeza diante da situação. Chorei torrencialmente por cerca de 50min. Liguei pra Cris, não conseguia falar. Naquele momento eu só conseguia chorar, estava desidratando de tanto chorar. Fomos para casa, comecei a arrumar as coisas e aos poucos me acalmar. Não havia o que fazer, era pensar na saúde e segurança do Oto em primeiro lugar, confiar na situação e seguir adiante. E assim, arrumando as coisas para a maternidade fui me acalmando.

Claro que tinha que ter algo positivo nisso tudo, e fui me apoiando nisso: terei duas experiências diferentes de parto! Para encarar tudo isso com um pouco de humor, o melhor foi imaginar que Oto – esse folião – tomou todo líquido amniótico no carnaval, secou o reservatório e ainda por cima pulou tanto que se enroscou no cordão duplamente em local inapropriado. Ok, acontece filho! Aí dentro e aqui fora. As 15h10, Dr. Rafael liga, antecipando a cirurgia para as 18h. Ele achava mais seguro realizar a cesárea o mais breve possível. E lá fomos nós! Eu, Dani, Oto e toda aquela “mudança de maternidade”, desde roupas até a cerveja para o brinde de boas vindas. Cris nos encontraria lá. Por incrível que pareça, deste momento em diante, o tempo foi generoso e voou. Foi tudo muito rápido, interessante, curioso e até mesmo divertido.

Nos instalamos na suíte B do Ilha, na sequência Cris chegou e dali já fomos pro centro cirúrgico. Lá, por mais estranho que possa parecer, o clima estava leve, sereno e descontraído. Algumas perguntas antes da anestesia, logo em seguida a aplicação dela. Em poucos minutos já sentia uma sensação estranha nas pernas e abdômen. Era a ausência de sentidos, era assim mesmo? Esse era o momento? Eu ainda perguntei: vocês têm certeza que ele não pode decidir vir agora de PN? Podemos esperar? Jogaram um “balde” de água fria nas minhas pernas, para ter certeza que a droga havia reagido. Eu achei aquilo tudo mágico, e ainda perguntei ao anestesista: quando eu tiver em casa entediada num sábado a tarde, sem muitas coisas pra fazer, posso vir aqui tomar esse negócio? O anestesista respondeu enfático: é teu segundo filho, tu não terás sábados de tédio tão cedo!

E foi nesse clima descontraído, com olhares atentos do Dani, meu e da Cris, que as sete camadas (sempre lembro do protocolo tcp/ip) foram desbravadas para romper a barreira entre os dois mundos: Oto passou pela divisa, às 18h11min. Não teve força comprida dessa vez, nem berros escandalosos, mas teve muitas outras forças! Era o começo da nossa história, talvez escrita não da maneira que havíamos planejado, mas da maneira que ela teve que ser escrita! Dani cortou o cordão, rompendo nosso vínculo físico e proporcionando ao Oto seu primeiro momento de independência. Eu estava do outro lado da cena, atrás de lençóis, imaginando como seria meu pequeno.

Foram longos e intermináveis segundos na expectativa, até que houve o nosso encontro.  Oto era lindo, lindo. Roxinho, inchadinho, com a marca do cordão na testa. Recebi ele em meus braços, emocionada! O acomodei em meu peito: era meu pequeno, com 51cm e 3kg670. Era eu pensando que nem todo carnaval tem seu fim! Quanto amor! Oto veio ao mundo para deixar nossa família completa.

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Fernanda Schweitzer

Para ler o outro relato da Fernanda (parto normal) clique aqui!

Ps: Cordão enrolado no pescoço ou outra parte do corpo do bebê NÃO é indicação de cesárea. A decisão do obstetra foi baseada em outros fatores, entre eles o líquido diminuído. Por Cris Doula


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