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Após 4 meses de luto, sinto que agora estou preparada para falar sobre o ocorrido.

Na verdade esse relato já vem sendo escrito desde os primeiros dias após a indução, pois foi a maneira que encontrei de desabafar. Desde o início tive dificuldades em tocar no assunto sem desmoronar, pois na minha cabeça, eu tinha que ser forte, não chorava na frente das pessoas, principalmente na frente dos meus filhos!

A descoberta:

Não foi uma gravidez planejada, mas jamais indesejada (lá no fundinho eu sempre quis muitos filhos!) Após a 2ª gravidez descobri o quanto é bom não tomar pílula e não ter hormônio sintético no meu corpo. Meus ciclos eram bem certinhos e “quase” sempre usávamos camisinha. Mas uma dieta muito restritiva (e um dia dos namorados empolgado) acabou alterando meu ciclo e pelas minhas contas ovulei bem no início. Foi assim que aconteceu, fizemos nosso Joaquim!

No início foi um choque, em meio a obra da nova casa e voltando ao emprego formal, eu grávida do nosso 3º filho.

Mas como já não era novidade, o pré natal já não nos preocupava.

A cardiopatia:

Tudo corria bem, até o ultrassom morfológico com 21 semanas.

Neste exame, a médica já identificou a má formação cardíaca e nos encaminhou para o especialista. Fizemos ecocardiograma fetal e nele veio o diagnóstico avassalador: Estenose aórtica, hipertofria do ventrículo esquerdo e mais outros problemas decorrentes desses.

Pesquisamos e apelamos ajuda médica pelo Facebook para salvarmos nosso pequeno.

Foi gratificante receber tanta ajuda, muitos desconhecidos entrando em contato e em pouco tempo estávamos em São Paulo, no HCor sendo atendidos pela melhor cardiologista pediátrica e sua equipe. Conseguimos entrar no sistema filantrópico para realizarmos o procedimento intra uterino para colocar um cateter no coraçãozinho do Joaquim para que no final do seu desenvolvimento ele tivesse uma pequena passagem de fluxo sanguíneo.

Infelizmente nem conseguiram realizar o procedimento, pois a estenose era crítica mesmo, tanto que nem a cânula entrava.

A perda:

A notícia de sua morte veio no dia seguinte, quando realizamos novo ultrassom ao perceber que ele não se mexia mais e não tinha batimentos.

Nosso mundo desmoronou! Sabíamos que a doença era grave e que tínhamos um longo caminho de cirurgias até sua recuperação, mas nunca imaginávamos que sua partida seria tão prematura!

Em SP, a médica nos deu as opções de fazer o parto lá, em outro hospital, ou voltarmos pra casa e fazermos isso junto a família, foi o que fizemos.

Ainda no aeroporto já conversei com a minha obstetra que foi preparando tudo para a nossa chegada.

Fomos para casa, matamos a saudade das crianças e dormimos um pouco (tentamos!)

O parto:

Realezei a indução na Maternidade Ilha, pois juntamente com a minha querida obstetra Dra. Karoline, decimos que era a melhor alternativa, pois eu não queria mais uma “cicatriz”. Queria que pelo menos o meu corpo não carregasse mais essa dor por meses!

Começamos pelo método natural da sonda. Foi dia “bom e ruim”, eu o João conversamos muito sobre os próximos passos, para relaxar assistimos vários episódios de Chicago Fire que estavam gravados no notebook e até fizemos umas fotos, pois como fotógrafa, sempre sonhei em fazer o ensaio na praia, o que não consegui nas gravidezes anteriores, pois na do Davi não tinha dinheiro e na da Joana era inverno! Segue uma fotinha que meu amado marido fez! (lá em cima).
Nisso passaram 24h e nenhuma evolução.

Partimos então para o uso dos comprimidos de “miso” colocados no colo para induzir o parto. Na primeira dose eu estava desanimada pois o obstetra de plantão não foi lá muito “cavalheiro” e eu já tinha tido uma experiência ruim numa consulta de plantão, em uma outra situção. Isso acabou me afetando, meu psicológico acabou “bloqueando” e eu não tinha os efeitos esperados do remédio.

Nesse tempo, minha querida doula Cris mantinha contato com o João pelo celular e como a coisa não engrenava, ela decidiu que ia ficar conosco! Abro aqui um grande parênteses, desde a descoberta da gestação mantinha contato com a Cris para que ela acompanhasse meu parto (ela tinha acompanhado meu último), mas quando descobrimos a doença do Joaquim, e com a possibilidade do parto dele ser em SP, ela foi uma das primeiras pessoas que contei, pois lá no fundinho tinha a decepção de que novamente “entraria pra faca!” Foi quando ela me disse, independente de onde você estiver, vou estar contigo! (nem que seja em pensamento!) E assim ela fez. Numa sexta ensolarada, ela chegou sorridente, já me tirando da cama, me levou para um banho gostoso e relaxante, trouxe a bola e assim nós ficamos  conversando, decidimos como seria nossa “despedida” e contamos até piadas! Descobrimos muitas afinidades e principalmente que ela é uma “pessoa normal” que come Xis e toma coca-cola!

No total foram 4 doses, na terceira é que a coisa engrenou de vez e que percebi qual seria o desfecho! Tive muita dor, mas doia mais a alma, pedi várias vezes para morrer, xinguei Deus de todas as formas e disse muito palavrão (nem eu sabia que meu repertório era tão grande!) Isso tudo me desfavoreceu, pois as contrações eram intensas e eu não dilatava! Meu corpo simplesmente reagia ao que minha alma sentia: eu queria acabar com aquilo, mas não queria acabar com aquilo!

Entâo pedi analgesia e consegui dormir um pouco. O João e Cris também!

Não durou muito tempo e a coisa evolui rapidamente, intenso! Essa era a palavra! Eu já tinha entrado num “transe” que nem lembro muita coisa que disse ou fiz! Só lembro que já tinha trocado o médico plantonista e senti um certo alívio. Mesmo assim eu já tava desistindo, e o João tadinho, ao presenciar toda aquela loucura, também não aguentava mais! Foi quando a Cris lembrou de um remedinho legal (dolantina) e conversou com a minha obstetra e o grupo de médicos do whats (que a essa altura já sabiam de toda  a minha trajetória).

Santo remedinho, em segundos consegui relaxar e a médica me examinou. Foi quando ela disse “ele tá aqui em baixo, já sinto a cabecinha” (mas era o bumbum, ele nasceu sentado). Meu marido saltou do sofá, apertou minha mão e dizia “você consegue, vamos lá!”. Só lembro do “Seu Madruga” na minha frente (sim, meu marido tava com uma camiseta com a imagem dele!)

Nem fiz muita força e ouvi o barulho como de um balde de água sendo jogado, era ele nascendo empelicado e a bolsa estourando. Mais uma contração e a placenta veio íntegra, eliminado a possibilidade de ter que fazer curetagem.

Como planejado, a Cris o pegou e foi prepará-lo para a nossa despedida. Nesse momento devo ter apagado por alguns minutos, efeito do remédio e pela ausência das contrações e da dor.

Já recomposta e acordada, a Cris nos trouxe nosso pequeno anjinho de touquinha e enrolado na sua mantinha. Ficamos ali o admirando! Apesar da tristeza, foi um momento mágico, conseguimos sorrir! Ele era a cara do papai e da mana Joana, tinha o mesmo narizinho do Davi. Aparentemente era tudo perfeitinho, sua mãozinha, seu pezinho e era gordinho para sua idade gestacional (730 gr – 25 semanas).

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Quando sabemos da sua morte, a nossa principal dúvida era se deveríamos vê-lo, de como seria seu aspecto, afinal era um bebê ainda em formação. Ainda bem que fizemos, pois acho que ia me arrepender muito se não tivesse vivido esse momento. Foi fundamental para concretizarmos o acontecido.

Muitos questionaram o porque da indução, porque não partir logo pra cesária e “me livrar” disso!

Eis aqui a resposta, fisicamente eu estava bem, sem febre e sem dor. Apesar dele estar sem batimentos, ele estava íntegro, com bastante líquido e com a placenta sem decomposição. Não havia necessidade de eu passar por uma cirurgia de grande porte, correndo sérios riscos, como hemorragia e reação a anestesia (que tive nas dos meus filhos) e ainda ter que enfrentar uma recuperação lenta e dolorosa.

Após ele nascer meu corpo estava “pronto pra outra”! Levantei direto para o chuveiro e lavei o cabelo sozinha. Meu sangramento durou uns 10 dias e meu ciclo menstrual regularizou já no mês seguinte. Voltei a dirigir após 3 dias e tive apenas uma alergia na pele devido ao anti inflamatório que tomei por precaução.

Conclusões:

Foi demorado, doloroso e intenso, mas era necessário!

Era fundamental que meu corpo e minha alma aceitassem esta situação.

Esse tempo foi ideal para conseguirmos fazer do nosso jeito, com muito carinho e amor por esse menino que em pouco tempo, nos ensinou muito e acima de tudo nos uniu e mostrou como temos amigos verdadeiros e ainda nos trouxe novas amizades.

E nesse desfecho, ainda me presenteou com a magnífica sensação de realizar o sonho de ter um parto normal. Muito obrigada meu filho!

São tantas pessoas para agradecer, que fica até difícil enumerá-los, mas não posso deixar de agradecer imensamente a um  anjo, chamada Cristina Melo, que nos apoiou e que sem ela, nós nunca conseguiríamos ter um desfecho tão intenso, mas com muito amor. Cris você vai estar sempre nos nossos corações! Confiamos a ti a missão de cuidar do nosso pequenino, pois você emana tranquilidade e amor, só assim conseguimos ter alegria, mesmo nessa situação difícil.

A vida é assim, feita de momentos bons e ruins. E todos nós temos que viver estes momentos. Não tem como fugir.

Acreditamos que sempre tem um lado bom, mesmo na pior tragédia. E nesse fato descobrimos o quanto somos fortes e reclamamos por coisas tão pequenas.

E principalmente o verdadeiro sentido da palavra amor!

Daiane Quinto


2 comentários

Samanta · 29 de março de 2016 às 12:05

Lindo relato, muito comovente.
Uma mulher muito forte.
Deus abençoe toda família.

Aline · 31 de março de 2016 às 16:42

Eu não te conheço e por empatia, estou morrendo de orgulho de você e do seu marido.
Desejo muita energia boa pra vocês!

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